Eu apostaria que Petrus Cariry gosta de viajar. Tem que ter um quê de vagante pra fazer um filme como este “Mais Pesado É O Céu”, um filme de estrada em que pouco se viaja de fato.
Antes, os personagens já estão exaustos da jornada quando finalmente se encontram no início da história. Eles são Antônio (Matheus Nachtergaele) e Teresa (Ana Luiza Rios). Os dois se encontram nas margens do açude que engoliu uma antiga cidadezinha, no interior do Ceará, e não têm absolutamente nenhum lugar para ir.
Mas por que é preciso ter um quê de vagante? Só assim para entender a beleza de caminhar debaixo de um céu cheio de estrelas ou conhecer aquela solidão contemplativa de uma estrada escura, atravessada apenas pelo ocasional par de faróis. Antônio e Teresa entendem isso e Cariry, se não entende, então finge muito bem.
Não que a errância dos dois seja enquadrada por uma lente romântica, pelo contrário. Esses andarilhos comem o pão que o diabo amassou, especialmente Teresa. Cariry filma essa desolação sertaneja com toques de filme de terror. A câmera digital sobrevoa planícies resplandecentes como se fossem paisagens fantasmagóricas. A correção de cor aumenta os contrastes e a saturação, deixando as cores pesadas, opressivas. O céu é azul, mas azul-chumbo.
O que está em jogo então é algo interessante: “Mais Pesado é o Céu” tenta equilibrar, por um lado, uma chave mais naturalista ao enfocar os personagens e seu meio, enquanto, por outro, assume uma certa artificialidade que me parece bastante consciente. Isso está nos usos de sintetizadores dissonantes da trilha, nos monólogos eventuais dos personagens, no modo como Cariry faz seus atores se moverem em cena. O que pode render ao filme algo de simplório, é verdade, especialmente no encontro final com a ameaça que vinha assombrando a trama. Mas é também a partir desse jogo de forças que o longa consegue sustentar seu clima por toda a projeção.
Os atores também ajudam. De Nachtergaele nem precisamos falar muito: é daquelas presenças que simplesmente atraem o olhar da gente, sem precisar de grandes esforços. Aqui, ele mantém o canto dos lábios contraídos, a fala serena e o olhar pesado de exaustão. Mas talvez seja Ana Luiza Rios quem tenha a tarefa mais complicada em mãos. No papel, dá para enxergar como sua personagem poderia acabar soando um pouco esquemática diante das articulações do roteiro e do clima de inevitabilidade da coisa toda. Mas a atriz evita a maior parte dos atalhos fáceis com seus olhos fundos e maçãs do rosto acentuadas, o que lhe confere uma certa beleza pedregosa perfeita para a durona Teresa.
Com direito a um bem-vindo tempero pulp durante a conclusão, este poderia muito bem ser um filme cansativo no seu fatalismo, uma coisa à la Claudio Assis, digamos. Felizmente, Cariry mantém a estrada aberta para o espectador viajar na poltrona.














