Quando ouço falar do David Byrne me vem automaticamente à lembrança aquela apresentação “desastrosa” do americano-escocês juntamente com Caetano Veloso na extinta premiação VMB (Video Music Brasil) em 2004 na também extinta emissora musical MTV Brasil. Na ocasião, depois de algumas falhas técnicas e de muito tentarem, Caê ficou p*t* da vida e esbravejou: “EMETEVÊ, bota essa porra pra tocar direito!”. Um clássico instantâneo que só quem viveu sabe e que por muitos anos foi bordão de alguns millennials, eu inclusive.

Voltando ao que interessa…

Muito antes desse causo e de uma excelente carreira solo, David Byrne liderou o Talking Heads, banda que fez imenso sucesso entre os idos de 1970 e 1980 com sua influência rock, new wave e world music. “Stop Making Sense” é a prova cabal da importância e magnitude da banda. O filme-concerto foi gravado  de forma independente em 1983 durante três dias no Pantages Theater, em Los Angeles, e conta com a direção de Jonathan Demme (antes de ser um diretor oscarizado por “O Silêncio dos Inocentes”). A produção volta aos cinemas 40 anos após o lançamento e ainda soa revigorante.

O início é magistral: close no tênis branco e surrado, um radinho à pilha e Byrne elegantemente trajando um terno e com seu violão. Já de início manda a braba “Psycho Killer”. Ok, essa música eu conheço, me soa familiar. A surpresa foi ao perceber que reconhecia muito daqueles sucessos tocados: “Burning Down The House”, “Once in a Lifetime”, “Thank You For Send Me an Angel”, “Girlfriend Is Better”, “Take Me to the River”… uma setlist sem defeitos passeando pela história da banda, do início da carreira solo de Byrne e do projeto paralelo Tom Tom Club, parceira do casal, Chris Frantz e Tina Weymouth (baterista e baixista, respectivamente) com o clássico “Genius of Love”, que os millennials, como eu, irão reconhecer por ter sido sampleada por Mariah Carey nas faixas “Fantasy” e “Fantasy (remix)”, um sucesso arrasta quarteirão dos anos 1990.

O filme-concerto vai sendo moldado aos poucos, os músicos são introduzidos faixa a faixa em um cenário que remete a um galpão, ou uma garagem de estúdio em frente a uma platéia em êxtase. Também pudera – Byrne é a síntese do SHOWMAN em maiúsculo: corre, pula, dança, faz dancinhas com as carismáticas backing vocals e demais membros, troca de roupa, pinga de suor. A performance é magnânima; não há como não assimilar toda a excelência de uma banda no seu auge, na sua sincronia ao vivo, todos alegres, exalando juventude, vitalidade e energia, com suas letras ora metafóricas ora diretas, reflexivas e sarcásticas.

“Stop Making Sense” é o contrário do que eu poderia imaginar de um documentário, é um filme-concerto (ou um concerto-filme) que exala anos 1980 com aqueles figurinos incríveis, com seus os jogos de luzes e projeções que muitas vezes me fez confundir o Byrne com o Cillian Murphy. 

Por sua imensa relevância para o gênero, o filme que venceu melhor documentário na National Society of Film Critics (1985) e foi adicionado no Registro Nacional de Filmes da Biblioteca dos Estados Unidos em 2021, volta aos cinemas em 4K no próximo dia 29 de agosto com pré-vendas iniciadas dia 22 de agosto.

Conselho de quem assistiu esse filme no PC e ficou vidrado na tela querendo voltar naquele tempo em que nem pensava em nascer? Compre suas longnecks, coloque na mochila e vá sentir essa experiência no cinema. Apenas vá.

Autor

  • Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Viciado em cultura e divas pop. Apaixonado por audiovisual (e isso inclui os novelões). Produtor de cinco curtas-metragens, entre eles "Manaus Hot City" e "Meus Pais, Meus Atores Prefiros". Jurado na 5° Edição Olhar do Norte 2023 e Curador do Ecossistema do Audiovisual no Festival Aceita 2024. E contando...!

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