Se você deve discutir um filme cuja trama tem um ventríloquo, uma dona de casa obcecada por bichos e um portal para a mente de um ator famoso, por onde você começa? Essa deve ter sido a batata quente nas mãos dos críticos que conferiram a estreia de “Quero Ser John Malkovich” há 25 anos anos, no Festival de Veneza. Ácida, absurda e pessimista, a comédia não perdeu nada do frescor nesse ínterim.
Uma sugestão seria começar pelo ventríloquo: no caso, Craig (John Cusack), que vive um casamento morno com Lotte (Cameron Diaz) enquanto flerta – sem sucesso – com a colega de trabalho Maxine (Catherine Keener). Um dia, por acidente, ele encontra um portal que o transporta para a mente do ator John Malkovich (interpretado aqui pelo próprio) por 15 minutos – e sua descoberta degringola a vida de todos os envolvidos.
A primeira coisa que chama a atenção no roteiro de Charlie Kaufman é sua recusa de pintar sua premissa com as cores do sci-fi. Ele faria isso em seu subsequente “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, mas aqui, ele – junto com o diretor Spike Jonze e o designer de produção K.K. Barrett – situa o público nos ambientes mais encardidos e ordinários, ressaltando o elemento fantástico em cena.
E bote fantástico nisso. Para as personagens neuróticas e carentes de Kaufman, a possibilidade de viver a vida de outra pessoa é apenas um meio para obter o que parece inalcançável. Para Craig, isto é sucesso. Para Lotte, afeto. Para Maxine, controle. E para o Dr. Lester (Oscar Bean), não mencionado neste texto até agora… bem, assista ao filme…
Fazer essas reflexões é ótimo – e o fato de que o filme permite essas leituras indica a riqueza do seu roteiro. Porém, nenhuma análise seria capaz de dar conta da absoluta sandice que é assisti-lo. As interações iniciais entre Craig e Maxine são puro humor de constrangimento e a cena em que Malkovich entra no portal que o leva para dentro da sua própria mente é um dos momentos mais hilariamente doentes já registrados em celuloide.
Se a produção em si é surpreendente, o que ela fez com a carreira de seus realizadores é ainda mais. Em 1999, Kaufman não tinha tido um roteiro produzido na vida e Jonze era mais conhecido como diretor de videoclipes e co-criador da série de TV Jackass. “Quero Ser John Malkovich” acabou rendendo a primeira indicação ao Oscar a ambos (bem como a Keener) e lhes dando a reputação de “autores”.
Justíssimo. O quarto de século desde seu lançamento só tornou a comédia mais presciente. Deste lado das telonas, a tecnologia (um elemento ausente no filme) evoluiu a tal ponto que é possível dizer que a sociedade vive outras vidas o tempo todo. O metaverso, as redes sociais, os óculos de realidade virtual… todas são ferramentas que permitem aos usuários estarem em outros lugares e, se quiserem, se passarem por outras pessoas – reais ou inventadas.
Esse desejo – tão demasiadamente humano – de fugir de si mesmo é a fonte da comédia de “Quero Ser John Malkovich” e uma das principais razões de ele ter envelhecido tão bem. Original como poucos, ele pergunta mais do que responde, mas você vai estar ocupado demais rindo para notar. Entre logo no portal.















Filmaço e excelente texto!