Foi uma coincidência bem providencial assistir a “Striptease” semanas antes de “A Substância”, novo trabalho da diretora Coralie Fargeat. Comparar um filme esquecível de 1996 com um dos melhores da safra de Cannes 2024 parece covardia, mas é difícil não fazer uma associação dos dois como exemplares da persona de estrela de Demi Moore. Há quase 30 anos, ela era a atriz mais bem paga de Hollywood, posto que alcançou justamente com o filme de Andrew Bergman. Não demorou muito para que esse status fosse superado por outras garotas mais jovens – como em “A Malvada” ou, para ficar nos anos 1990, “Showgirls”, parecia não haver espaço para mais de uma no topo, e Demi logo foi descartada pela indústria.  

É nesse paralelo entre atriz e personagem que o filme de Fargeat fica ainda mais fascinante: ao falar da crueldade de um mundo que não deixa mulheres envelhecerem, ela usa do body horror para levar suas personagens – principalmente Elizabeth, vivida por Moore – ao extremo em nome de uma fonte da juventude eterna. Não é algo exatamente novo: a promessa de um elixir da vida remete a títulos como “A Morte lhe Cai Bem”, por exemplo. Assim como no filme de 1992, Fargeat também traz uma narrativa satírica, mas o contexto é bem diferente, com um mundo do espetáculo com cada vez mais acesso a fórmulas “milagrosas” – e, por vezes, extremas – de rejuvenescimento.  

Quando Elizabeth se depara com uma dessas fórmulas (a Substância que dá nome ao filme), ela já havia sido colocada de escanteio porque apenas não tinha mais o mesmo rosto e nem o mesmo corpo do auge midiático. Ela continua uma mulher completamente dentro do padrão, e pode até ganhar os elogios de etaristas que dizem que ela está “muito bem para a idade que tem”, mas o sucesso já não é mais o mesmo de antes. Antes mesmo de colocar Moore na tela, Fargeat apresenta o showbiz como um ambiente hostil e o faz de forma simples e efetiva, ao mostrar como uma estrela da Calçada da Fama é um símbolo de uma indústria que celebra, desgasta a imagem e depois a deixa de lado.   

Essa efemeridade está presente em detalhes da direção de arte, como quadros que mostram o passar do tempo para Elizabeth, e um outdoor que anuncia o novo sucesso da vez. Ela também se vê na agressividade dos homens do filme, sobretudo o personagem de Dennis Quaid. A introdução da protagonista como uma versão 2024 de Jane Fonda-na-fase-VHS-de-aeróbica é uma ênfase à volatilidade do capitalismo, principalmente se lembrarmos que essa fase da atriz veio justamente quando a atriz estava na casa dos 40 anos (ao chegar aos 50, ela iniciou um hiato na carreira que durou mais de uma década). 

Rodeada por homens que tomam decisões, Elizabeth sucumbe à Substância, e vira um duplo de si mesma, com uma versão mais jovem (vivida por Margaret Qualley) que toma conta de tudo o que era da mais velha. Os holofotes se voltam para a persona nova, batizada de Sue, mas o mundo não fica menos grotesco. Enquanto as duas vivem em uma guerra entre quatro paredes, os mesmos homens que descartaram uma também começam a colocar defeitos na outra.   

Premiada merecidamente em Cannes pelo roteiro do filme, Fargeat expõe um mundo que reduz mulheres a verbos. “Você ESTÁ bonita”. “Você ESTÁ bem para a sua idade”. “Eles VÃO te amar”. Pode ser um feed do Instagram ou uma semana na vida de quem é colocada sob os holofotes para escrutínio público? Uma é passado. Outra é o futuro, mas um futuro rápido, que não demora a virar presente e vai demorar menos ainda a ocupar o mesmo espaço que aquela que virou notícia de ontem. Mesmo em uma indústria que caminha a passos lentos para ter uma diversidade que espelha a vida real, essa ainda é uma realidade.  

A indústria que fez do corpo de Demi Moore um símbolo de juventude e beleza lá em 1996 é a mesma que a ridicularizou pelo fracasso do filme que colocava esse corpo no centro dramático. É a mesma que, menos de dez anos depois, celebrava um “retorno” da estrela em uma superprodução que exaltava os atributos físicos dela em um tom de “bem demais para a idade”. E agora parece que, com “A Substância”, é a mesma que tenta fazer as pazes com a atriz que estava escondida dentro da estrela.