Dirigido por Pablo Monteiro e pelo Coletivo LAB+SLZ, “João de Una Tem um Boi” representa uma imersão na festa da cultura popular do interior do Brasil. Na comunidade de Itapera, zona rural de São Luís, no Maranhão, acontece, todo ano, a festa que recria o ritual do boi encantado João de Una. Os cineastas permitem que os próprios moradores contem como e por que a festa e seu ritual ocorrem.

É necessária uma boa dose de sensibilidade para retratar essa religiosidade, bem como o contexto dos encantados e entidades. Felizmente, a abordagem não é intrusiva, como a de alguém de fora, mas sim respeitosa: são os membros da comunidade que falam. Essa abordagem funciona, embora alguns pontos fiquem indefinidos para os externos – confesso que não entendi todos os aspectos ligados à festa. Em alguns momentos, os entrevistados parecem falar quase em um “dialeto” próprio e uma explicação de alguns termos, além de uma contextualização maior, poderiam beneficiar “João de Una Tem um Boi” .

À parte esse pequeno senão, é obviamente positivo que manifestações culturais como esta permaneçam vivas no Brasil, mesmo com as mudanças dos tempos e da sociedade. “João de Una Tem um Boi”   serve como registro para ajudar nesse processo. Vários dos depoimentos ampliam a importância dessa manifestação cultural, especialmente a do Pai Joan, que incorpora a entidade; além das imagens da festividade e do carregamento do “mourão”, o enorme poste onde o boi de brinquedo é amarrado ao final. As imagens captadas via drone, mostrando uma multidão carregando a estrutura pelas ruas da comunidade, são impactantes.

Para além das imagens, o trabalho sonoro do curta também é superlativo. Desde o início, percebe-se a importância do som, quando vemos (e ouvimos) o DJ começando a tocar sua música. Há sempre alguma musicalidade no curta, muitas vezes servindo como elemento de ligação entre os depoimentos dos entrevistados. Esses sons e músicas ajudam na imersão dentro do barracão onde ocorre a festa e, claro, fazem parte do universo maranhense tanto quanto as imagens que vemos na tela.

No fim das contas, o curta alcança seu objetivo e expõe a força e a beleza do ritual, capaz de unir festa, religiosidade e influências africanas de uma forma única, como só acontece no Brasil. As cenas finais da festividade conseguem, inclusive, aliar a abordagem respeitosa e sensível que permeia o curta-metragem a uma pitada de bom humor, revelando o lado “moderno” da festa, quando, a partir de certa altura, ela é conduzida ao som de música popular da “rádio Perereca”.

É algo tipicamente brasileiro: religiosidade que mistura várias influências – e também comidas e bebidas típicas, que são integradas aos festejos, como não poderia deixar de ser – caminhando de mãos dadas com um espírito de humor. Mais “suco” de Brasil, e imagino, do Maranhão (estado que nunca visitei, infelizmente), é difícil de conceber. Conseguir retratar esses aspectos, que poderiam ser contraditórios, mas de algum modo não são, acaba sendo a maior qualidade do documentário.