“Não sobrou nada”: assim inicia “A Menina e o Pote”, curta-metragem em animação co-dirigido e roteirizado por Valentina Homem. A produção é levemente inspirada em narrativas mitológicas Baniwa e Yanomami, bem como no conto escrito pela diretora, “O Conto Sobre o Vazio”.

A produção é uma experiência imersiva junto com uma menina que tem apenas um pote como companhia e morada. Pote este que se quebra a levando em outros lugares, ao vazio, ao múltiplo, ao desconhecido. 

É nesse sentido que “A Menina e o Pote” transita em uma espécie de fábula para narrar a urgência de olharmos ao redor e para dentro de si, na busca de ressignificar nossas existências e compreender que o temido fim pode estar mais próximo que imaginamos se acaso não reconhecermos a necessidade urgente da preservação da natureza e da vida como um todo. E não apenas isso, o que seria da humanidade sem os mitos, sem as lendas, nas as histórias orais? Há também uma questão fundamental que ela acentua acerca da preservação da memória.

E todas as teias se interconectam na angústia de Valentina, uma mulher branca, em entrelaçar seus anseios com a filosofia indígena das etnias Baniwa e Yanomami. O início, o meio, o fim e o além – ou em órbita. Cosmovisões que chega em um momento delicado com as queimadas Brasil afora, mais um indício do fim. 

Com uma animação fortíssima, impactante e recheada de significados, Valentina Homem aponta para esse estado em que vivemos atualmente do vazio, como estamos vazios em um mundo tão vasto e plural, e de como a Mamãe Natureza, está nos cobrando o longo período de exploração e descaso para com ela. A conta sempre chega, como diz o dito popular.

Há uma frase no filme importante: “corpo é território sagrado do espírito”. Ora se nosso corpo é território e respeitamos nossos limites, como não respeitar os limites do solo que nos sustenta? 

“A Menina e o Pote” é co-dirigido por Tati Bond, com colaboração de Nara Normande e Eva Randolph. A antropóloga indígena Francis Bawina é a voz que narra o filme que estreou no Festival de Cannes 2024.