Passe tempo o bastante vendo filmes e talvez você tenha uma amostra mais ou menos compreensiva da complexidade da experiência humana. Ao mesmo tempo, o cinema também nos mostra que certas coisas são iguais em toda a parte. O inferno da adolescência, por exemplo. Ou os horrores dos almoços em família, especialmente na presença de velhos racistas. Ou, enfim, a ascensão do neofascismo.
O que, aliás, talvez dote os novos pubescentes de um senso de urgência único: é preciso viver rápido não apenas porque assim clamam os hormônios, mas porque o mundo está acabando. Eis que Claire Burger em “Língua Estrangeira” nos oferece a imagem mais perfeita e mais romântica para essa nova adolescência raivosa e desesperada: duas sapatões em um protesto, gritando impropérios contra a polícia e levando spray de pimenta na cara.
Fanny (Lilith Grasmug), francesa de pai árabe, e Lena (Josefa Heinsius), alemã de olhos azuis, precisam navegar por esse tableaux de fortes emoções em meio a uma Europa fragmentada, paranóica e racista. Elas se conhecem através de um intercâmbio da escola: Fanny passa um período na casa de Lena, em Leipzig, e Lena retribui a visita em Estrasburgo. Lena é uma feminista vegana de mullet e cara de poucos amigos. Fanny é uma jovem de olhar amendoado que está passando por uma crise de nervos. As duas vão se dar bem.
O que Claire Burger faz a partir de então é acompanhar o movimento de aproximação das jovens e o modo como elas precisam se colocar diante desse mundo caótico. A crueldade de adolescentes cuzões já basta para transformar a busca pela própria identidade em um pesadelo por si só. Agora imagine isso em um mundo em chamas.
Ainda bem que elas têm uma a outra. É importante dizer que “Língua Estrangeira” é um filme absolutamente sensível e sexy, e que seu sucesso se deve às imagens cuidadosas de sedução orquestradas por Burger (o primeiro beijo no gramado é memorável), mas não só. O trunfo de Burger são as duas atrizes no cerne da história, que através da alquimia inenarrável de seus gestos e olhares conjuram uma paixão genuinamente palpável entre suas personagens. Que tal arrebatamento seja complementado pelos embalos eletrônicos da trilha sonora e pelos azuis vítreos da fotografia em película, submersos na alvidez rósea das protagonistas, também ajuda.
Provavelmente o filme mais irresistível do Festival do Rio e, dentro da nova seara de coming of age femininos (vide, por exemplo, “How To Have Sex”), talvez o melhor retrato do amor nos tempos do neofascismo.












