ALERTA: texto contém SPOILER
“Maníaco do Parque” traz para o cinema um dos episódios mais aterrorizantes da nossa história criminal, que deixou o Brasil em estado de choque no final dos anos 1990. Inspirado nos clássicos americanos de investigação, mas com toques da cultura brasileira e algumas escolhas diferentes, o filme acaba sendo mais um produto da era do true crime, centrado no personagem e deixando um pouco de lado uma construção de trama sólida ou uma linguagem cinematográfica mais ousada.
A narrativa se divide entre dois focos principais: o assassino com seu perfil e métodos e quem está do outro lado, investigando-o, sentindo na pele o impacto dos crimes, em uma estrutura de “investigador vs. criminoso”. Só que aqui a investigação não é policial – é feita por uma jovem jornalista, Elena (Giovanna Grigio), em uma abordagem que lembra “Zodíaco”, mas sem a mesma força. Elena vê no caso uma chance para se provar como repórter, mas logo enfrenta desafios não apenas profissionais, mas também emocionais, ao lidar com as dores das vítimas, todas mulheres como ela, enquanto a mídia fomenta o mito do serial killer. É uma crítica que “Maníaco do Parque” tenta fazer, mas que acaba reforçando em vários momentos, entre uma trama familiar mal explorada e dilemas que se perdem no drama superficial.
No núcleo do assassino, acompanhamos Francisco – o trabalhador comum e o “Maníaco do Parque”. Silvero Pereira, interpretando o criminoso, rouba a cena. Ele traz uma intensidade magnética que se sobressai mesmo nas cenas mais neutras, onde sentimos uma tensão constante além da aparência de homem comum. Mas o filme acaba pendendo, em vários momentos, para o lado do true crime com uma abordagem quase ilustrativa de uma figura mítica do serial killer, com diálogos expositivos que, em alguns momentos, parecem saídos direto de uma página da Wikipedia, ou em outros momentos aleatórios que tentam forçar o espectador a lembrar o tempo todo que ele não é um “humano comum”, mas o mal encarnado, o psicopata dos filmes, etc.
Para além da atuação de Silvero, outro ponto forte é a recriação da São Paulo dos anos 1990. A cidade se torna quase um personagem próprio, capturando não só o cenário da época, mas também o medo profundo que atravessava a vida dos paulistanos. Embora o impacto desses crimes tenha abalado todo o país, o terror era especialmente real para quem vivia na cidade.
A representação de criminosos reais no cinema é sempre um desafio delicado, com o risco de criar empatia ou até glamourizar o criminoso. Em “Maníaco do Parque”, não há uma romantização explícita, nem um apelo pelo gore, mas o protagonismo inevitavelmente recai sobre o assassino, desvendando seus métodos e motivações. É uma abordagem que, ao tentar “entender” o psicopata, alimenta a curiosidade do público, resultando menos em um filme de investigação. Toda a trama da jornalista e das investigações poderia ser descartada sem grandes perdas, pois, por mais que tentem, não é o foco do filme nem o que o público-alvo quer ver; parece mais uma tentativa de fazer o filme não parecer apenas um Linha Direta da vida.
Indo além e dando um spoiler, em uma das cenas finais, Elena se recusa a entregar o protagonismo da história ao assassino, recusando-se a publicar uma entrevista que fez com ele e preferindo contar a história das sobreviventes, dando voz às suas dores. É uma crítica ao jornalismo sensacionalista que mais se alimentou da história e um esforço para contrastar as motivações do criminoso. No entanto, essa postura acaba contraditória no próprio filme, que investe muito mais no criminoso do que nas vítimas.
Mesmo sem romantizar os atos, “Maníaco do Parque” detalha e dramatiza cada passo, mostra a história de Francisco e, de certa forma, dá a fama que ele tanto queria, encerrando com a informação de que o verdadeiro criminoso será libertado em quatro anos. E a pergunta que fica é: qual o verdadeiro propósito de contar essa história?













