O Saturday Night Live é o programa televisivo de comédia mais longevo da TV americana e como acontece com qualquer coisa que perdura por muito tempo, virou uma instituição. Sobreviveu às mudanças sociais, aos gostos populares e aos altos e baixos da produção televisiva e comédia americana. Mas uma instituição não nasce desse modo e o filme Saturday Night do diretor Jason Reitman nos mostra o nascimento da atração, que começou vibrante e ancorado por comediantes que viriam a fazer história no cinema.
O filme se passa na noite de 11 de outubro de 1975; é a noite de estreia do programa, que vai ser apresentado ao vivo diante de uma audiência – como é ainda hoje. Mas naquela noite, ninguém sabia sequer se haveria programa, porque a atração sem roteiro definido era um caos nos bastidores. O produtor Lorne Michaels (interpretado por Gabriel LaBelle, de Os Fabelmans) corre de um lado para o outro feito barata tonta, e tenta organizar a loucura ao mesmo tempo em que busca apaziguar os velhos de cabelos brancos que mandam na emissora NBC.
Mas Michaels tinha um trunfo, um elenco de comediantes simplesmente espetacular: Chevy Chase, Gilda Radner, Andy Kaufman, Billy Crystal, Dan Aykroyd, o lendário George Carlin e o poço de energia em forma humana, John Belushi. Mesmo nós, brasileiros que não víamos o SNL, mas que crescemos vendo filmes e TV dos anos 1970 e 1980, conhecemos muitos desses nomes.
De certa forma, Reitman é um bom diretor para o projeto por ser filho de Ivan Reitman, diretor de comédias de sucesso mundial como Os Caça-Fantasmas (1984) e que conheceu e trabalhou com alguns desses nomes. A câmera de Reitman e do diretor de fotografia Eric Steelberg não para e, às vezes, a movimentação é vertiginosa, seguindo os personagens e as loucuras dos bastidores do programa. E por ser filmado em película, o visual de Saturday Night parece autêntico e vivo. Além disso, a montagem não deixa o ritmo se dissipar: mesmo que às vezes o espectador se veja meio confuso, ele sempre se mantém entretido.
Pelo ritmo e pela própria natureza da história, os personagens não são realmente desenvolvidos, e Saturday Night se torna mais recomendável para quem conhece ao menos o básico sobre as pessoas que estão sendo retratadas ali. Mesmo assim, algumas atuações se destacam, como Cory Michael Smith, que se diverte vivendo Chase – segundo vários relatos, um dos caras mais arrogantes que Hollywood já viu – ou Matt Wood, como Belushi. Ainda assim, senti falta de um pouco mais de Gilda Radner – Ella Hunt está bem no papel, mas só tem de fato uma breve cena como destaque.
Em compensação, temos Matthew Rhys se esbaldando nas breves cenas de Carlin; um divertido Willem Dafoe como o antagonista, o coroa manda-chuva da NBC; J.K. Simmons arrancando algumas risadas como o “Sr. Televisão” Milton Berle; Rachel Sennot com uma boa e sensível participação como a “esposa” de Michaels; e Nicholas Braun, de Succession, curiosamente interpretando dois papeis, Andy Kaufman e o criador dos Muppets, Jim Henson, que por algum motivo estava lá no começo do SNL.
A estranheza de ver o mesmo ator fazendo dois personagens, e alguns momentos isolados, apontam para um filme ainda mais maluco e solto, e de fato, essa é a maior crítica a Saturday Night: apesar do ritmo frenético e de ser divertido – de novo, os espectadores que tiverem um conhecimento prévio dos retratados ali vão se divertir mais – ele ainda parece um filme seguro, que apela para a nostalgia, obviamente do público norte-americano. Em algum lugar por ali, perdidas em meio à confusão, estão as sementes de uma versão ainda mais imprevisível e divertida.
Como uma recriação de uma época passada, em que o entretenimento parecia um pouco mais especial por haver menos opções dele, Saturday Night é um barato: os figurinos e o trabalho de direção de arte são impecáveis em nos transportar para aquele momento especial da história da televisão dos EUA. E, novamente, alguns momentos isolados e certas atuações são precisas e divertidas, e fazem valer a pena a assistida. Apesar de ser um pouco superficial, o filme é bem sucedido em captar um momento em que a TV podia ser revolucionária, louca e imprevisível, e hoje temos bastante consciência de como esses momentos eram raros.
Bem, na pior das hipóteses, quando virmos na TV um Saturday Night Live recente, sem graça e com convidados insossos, poderemos olhar para este filme e absorver um pouco do carinho por essa época muito especial da comédia.













