De tempos em tempos, é preciso um filme genuinamente bom para que nos lembremos daquilo que você, leitor bem informado, provavelmente já sabe: essa história de awards season é uma piada. Se qualquer uma dessas premiações fosse justa, então Nicholas Hoult estaria cotado como melhor ator, Toni Collette, como atriz coadjuvante, e Clint Eastwood se tornaria o recipiente mais velho da estatueta de melhor diretor.
Sabemos que não é o caso. Pior: nenhum desses nomes parece ter chances reais de sequer angariar uma bendita indicação. Compare “Jurado No. 2” a, digamos, um “Conclave” da vida, e você verá o quão grande é o abismo. Ambos são filmes de deliberações cerebrais, mas enquanto o drama papal escolhe as soluções mais fáceis para seus supostos dilemas morais, chafurdando o espectador com discursos prontos para os aplausos, Eastwood não nos oferece nenhuma escapatória. E apenas um desses filmes será badalado nos red carpets.
É útil enxergar “Jurado No. 2” sob o prisma da última década da filmografia do veterano cowboy. Desde “Sniper Americano”, todos os filmes de Eastwood, sem exceção, são tratados sobre o heroísmo made in America. Melhor dizendo: sobre a tensão entre a representação do heroísmo e o fato vivido.
A bravura sanguinária do atirador Chris Kyle, por exemplo, nada mais era do que fruto de uma cultura violenta que valoriza a agressividade masculina. Já “15h17: Trem Para Paris” contrasta a banalidade mundana dos protagonistas com o breve episódio de heroísmo que passa a definir suas vidas. Nesse sentido, é provavelmente “O Caso Richard Jewell” que se sagra como obra-prima definitiva dessa fase: trata-se, sem dúvidas, do ataque mais direto de Eastwood a todas as falácias discursivas que permeiam o bom-mocismo estadunidense.
“Jurado No. 2” segue explorando esse terreno, agora sob os moldes do filme de tribunal. Nicholas Hoult é Justin, jornalista convocado para compor o júri de um caso brutal: um troglodita violento é o único suspeito de ter assassinado a própria noiva. Mas Justin logo percebe que o sujeito acusado é inocente. Como? Acontece que, ao reconstituir a noite do crime, Justin se dá conta de que é ele o verdadeiro responsável pela morte da moça, um trágico acidente do qual o pobre jurado sequer havia se dado conta.
A descoberta gradual dos pormenores do incidente é um dos prazeres de “Jurado No. 2” que não pretendo estragar. O importante é entender a sinuca-de-bico onde Justin se encontra: prestes a se tornar pai de família, deveria ele expor a verdade e enfrentar uma possível prisão perpétua, ou, em contrapartida, deixar um homem inocente apodrecer na cadeia?
O que se sucede é uma versão distorcida de “12 Homens e uma Sentença”, com Justin ocupando a posição de Henry Fonda como voz da razão. A diferença é que, se Fonda, o homem que deu vida a Lincoln na cinebiografia de John Ford, representava um verdadeiro arauto da justiça, Justin, por sua vez, é fundamentalmente um covarde culpado. Daí que a plateia se vê implicada na sua tramoia: não queremos que um homem inocente, por mais escroto que ele seja, vá para a cadeia, ao mesmo tempo em que torcemos para que Justin não seja pego.
Está armada a arapuca. O resultado é algo cada vez mais raro hoje em dia: um filme cujo final nós genuinamente não podemos adivinhar.
Mas engana-se quem pensa, a partir da descrição acima, que o longa de Eastwood é seco e austero. Pelo contrário, o nonagenário segue dotado de um humor mordaz, sustentado graças ao talento de seu elenco. Assim, conforme a culpa no cartório cresce para o lado de Justin, basta uma reaction shot de Nicholas Hoult engolindo em seco para nos despertar o riso. Ou ainda, um mero olhar de enfado da vaidosa promotora de Toni Collette, exasperada diante do chororô do homem que julga ser o culpado. Há, portanto, um trabalho preciso da montagem em cena, que torna tais inserções perversamente cômicas.
No decorrer da projeção, eu lembrava do questionamento no cerne de todas as temporadas de “Família Soprano”: as pessoas podem mesmo se tornar melhores? Estamos realmente dispostos a enfrentar o trabalho duro para isso? Justin, alcóolatra em recuperação, acredita ter tido uma nova chance. Difícil comentar sua trajetória no longa sem pormenorizar detalhes cruciais da trama. Digamos apenas que Clint, velho de guerra, tem uma visão um pouco mais ácida sobre os códigos morais que inventamos do que (e não é querendo bater em cachorro morto…) um filme como “Conclave”.
Em outras palavras: “Jurado No. 2” é imperdível.













