Antes de tudo, um aviso pessoal aqui, leitor, em nome da honestidade: eu não suporto o cantor britânico Robbie Williams. Não gosto do pop dele e acho que aquela música “Angels” deveria ser classificada como instrumento de tortura pelo Tribunal de Haia. Me perdoe se você curte, leitor, mas eu não consigo. Em minha defesa, pelo menos não estou sozinho: em Better Man: A História de Robbie Williams, cinebiografia do artista, ele próprio, enquanto narra a própria história, diz que muitos já o chamaram de arrogante e egocêntrico, entre outras coisas.

Por isso mesmo, fico até surpreso de ter gostado de Better Man. É a magia do cinema: o filme, graças à sua narrativa e aos elementos fílmicos, pode fazer você se envolver com a história de alguém de quem você não gosta na vida real.

O longa do diretor Michael Gracey – o mesmo de O Rei do Show (2017) – conta a trajetória deste ídolo pop, desde a infância pobre até o estrelato na adolescência como membro da boy band Take That nos anos 1990, passando pela carreira solo e seus dramas. Mas há um porém: Williams aparece o filme inteiro como um macaco.

É uma decisão criativa que não tem justificativa, nem dentro da história, nem da estética do filme: ele é um macaco, e pronto. Nenhum personagem acha isso estranho e, ao longo da trama, o vemos como criança, adolescente e adulto. Mas essa é a abordagem criativa que faz o filme. A princípio, a presença de um macaco junto a personagens humanos causa estranhamento, mas depois nos acostumamos e acabamos nos aproximando do protagonista. Isso também promove um certo diferencial para o filme, pois, no fim das contas, Better Man não deixa de ser uma cinebiografia bem padrão em termos de narrativa: é a mesma história de ascensão, queda e recomeço que já vimos, e que se tornou comum no cinema nos últimos tempos. Se o conteúdo é o mesmo, ao menos a forma é um pouco diferente.

E que forma! A grande qualidade do filme é mesmo a expressividade do protagonista: criado pela Weta, empresa do cineasta Peter Jackson, o chimpanzé Robbie Williams do filme é absolutamente expressivo. Feitos em close-up, os detalhes de seu rosto, assim como o seu olhar, são poderosos. Ele parece uma figura totalmente real, com a ajuda das escolhas de iluminação e fotografia do filme. O próprio Williams fez a captura de performance para algumas cenas, mas a maior parte do que vemos no filme é trabalho técnico do ator Jonno Davies.

Interessante ver essa figura nos bastidores do britpop dos anos 1990, época em que a Inglaterra exportou fenômenos musicais para o mundo como não fazia desde a década de 1960. Vemos o sucesso do Take That em um plano-sequência espetacular ao som de “Rock DJ”. Claro que é artificialmente montado para parecer contínuo, mas a coreografia inventiva e os movimentos ágeis de câmera concebidos por Gracey mantêm o momento cheio de energia. Aliás, Better Man todo é bem dinâmico e divertido, e seus números musicais são ora vibrantes – como “She’s the One” – ora comoventes – como “Feel”.

Porém, o roteiro não deixa de ser previsível, chegando a martelar na cabeça do espectador a mesma cena várias vezes: Robbie está em um concerto e começa a ver e ouvir a si mesmo na plateia, como se estivesse confrontando seus demônios. Isso leva a uma cena apocalíptica que parece saída de um dos exemplares recentes de Planeta dos Macacos, mas até lá a mensagem já tinha ficado clara, sem necessidade de tantas repetições. A trajetória do personagem também é bem previsível e clichê para este tipo de filme.

É uma pena que, para um filme tão bem realizado na parte técnica, a narrativa não apresente tanta criatividade ou força. Ao bater várias vezes nas mesmas teclas dramáticas, o filme começa a perder força até o seu final, que, embora emotivo, não deixa de ser clichê e preguiçoso.

Ainda assim, em seus melhores momentos, Better Man exemplifica um dos paradoxos da arte: muitas vezes, quanto mais o artista se esconde, mais ele se expõe em sua obra, seja um livro, uma música ou, neste caso, um filme. Ao colocar um macaco digital no centro do longa, Robbie Williams e Michael Gracey encontraram a oportunidade para serem honestos e se exporem, e, no fim das contas, como um dos personagens diz no filme: “A música só tem valor se custar algo para o cantor”. E, no meu caso, felizmente, essa honestidade paradoxal provocada pelo artifício de um macaco (!) acabou tornando a experiência mais palatável.