Seria a crítica de cinema um campo diferenciado do restante do ofício cinematográfico quando o assunto é equidade de gênero? Conversei com sete críticas de cinema de regiões diferentes do país e de raças distintas – porquê concordo veementemente com Grada Kilomba quando esta afirma que não dá para discutir gênero sem incluir raça e vice-versa – para saber o que pensam sobre a nossa profissão e o que esperam para os próximos dois anos, afinal, o futuro é logo ali na próxima esquina.
A opinião delas está nas linhas a seguir e foi a melhor forma que encontramos para celebrar o Dia Internacional da Mulher: dando espaço para que deixemos claro nossas rotinas, nossos incômodos, as metas que traçamos e, logicamente, os sonhos que nos embalam quando o assunto é o futuro da crítica cinematográfica feminina.
Camila Henriques
No ano retrasado, fiz um exercício no finado Twitter. Perguntei nomes de críticAs/crítiquEs de cinema que as pessoas admiravam, porque, quando faziam esse questionamento sem denotar gênero, você só lia nomes de homens. Mesmo assim, teve gente que respondeu os nomes de… homens (teve um que deu RT e disse pra citarem o nome dele, risos).
Isso é meio que um resumo da minha experiência enquanto mulher na crítica. Vejo uma grande quantidade de colegas que desistiram nos últimos anos por falta de reconhecimento, porque é quase impossível pagar todas as contas com atividade crítica, porque foram passadas pra trás ou porque, basicamente, cansaram de se submeter a um ambiente tão tóxico.
Em alguns momentos, é quase um relato de estresse pós-traumático e sei que não estou sozinha nessa. Aprendi que o fortalecimento mútuo é importantíssimo nos momentos difíceis. Tem sido uma jornada de muito aprendizado e parcerias que levo pra vida, e fico muito grata que muitas dessas parcerias sejam de outras mulheres. E a todes que estão lendo, reforço o questionamento simples do meu tweet de 2023: quantas/quantes críticas/crítiques vocês consomem?
Onde conferir o trabalho da Camila Henriques: Sábado sem Legenda e Feito por Elas
Carissa Vieira
Acredito que a crítica de cinema brasileira tem muito a melhorar. Primeiro que boa parte de quem faz crítica não consegue viver somente disso. E quando falamos de mulheres, a situação fica ainda mais complexa porque o número de homens é maior que o de mulheres. Além disso, ainda existe muita misoginia na área. Opiniões de mulheres com estudo e experiência continuam sendo diminuídas, invalidadas, principalmente quando fogem do padrão ou criticam machismo e misoginia. Óbvio que muitas pessoas dirão que não é verdade, mas na prática a tendência é hipervalorizar o trabalho masculino, já com o feminino isso não acontece.
Gostaria de ver mais diversidade entre a crítica. Mais mulheres de diversas regiões do país, falando de forma mais plural sobre cinema. Porque a crítica além de muito masculina, branca, ainda é muito dominada por pessoas do Sudeste. O número de mulheres que possuem visibilidade e que são do Norte e Nordeste ainda é pequeno comparado ao de mulheres do Sudeste. Então gostaria de ver mais mulheres fora do eixo Rio-São Paulo falando sobre cinema. E com espaço. Porque a questão não é simplesmente falta de profissionais, mas falta de oportunidade para essas profissionais.
Onde conferir o trabalho da Carissa Vieira: canal no YouTube
Fabiana Lima
Eu relatei minha experiência na crítica como mulher em um texto bem detalhado em 2024, um desabafo de gênero que reuniu muitas das minhas frustrações em cinco anos escrevendo sobre cinema. Contudo eu sinto que consigo resumir o sentimento em uma dualidade: de um lado, existe o fator positivo de poder representar mulheres em um universo tão cheio de visões de mundo afetadas em masculinidade, do outro existem todos os percalços que sentimos na pele desde opiniões invalidadas a menos oportunidades.
Nos próximos anos, eu queria ver mais mulheres na crítica, mais mulheres e homens dando oportunidades/visibilidade para mulheres que estão no começo e menos sentimento de síndrome de impostora assolando nossas vivências. Que a gente tenha cada vez mais segurança no que falamos e que, com mais constância, sejamos validadas nisso!
Onde conferir o trabalho da Fabiana Lima: Cinemafilia e Cinem(ação)
Georgiane Abreu
A crítica de cinema foi por muito tempo um reduto masculino, até porque o próprio fazer cinema também esteve circunscrito aos homens. No entanto, algumas figuras pioneiras abriram caminho para as mulheres na crítica: Pauline Kael nos EUA e Luzia Miranda Álvares no Brasil, mais precisamente na Amazônia, região a partir da qual escrevo este relato.
A força dos movimentos identitários das últimas duas décadas trouxe em seu fluxo a abertura para o fortalecimento de grupos de mulheres na escrita crítica sobre filmes. A partir disso, reclamos mais espaço em todos os nichos da indústria e, entre funções técnicas e criativas, nos tornamos mais numerosas e atentas. Não acredito que haja retorno. Daqui a dois anos espero que sejamos muitas mais.
Onde conferir o trabalho da Georgiane Abreu: Feito por Elas
Lorenna Montenegro
A gente precisa seguir lutando por mais espaço, menos precarização e mais respeito a nossa profissão. Além disso, pensa-se na necessidade que existam mulheres criadoras de conteúdo que não apenas se intitulem críticas de cinema, mas que também estudem e tragam conteúdos que não sejam superficiais, os quais realmente se comprometam em difundir a cultura cinematográfica e audiovisual. Acho que existe espaço para todas, espaço de convivência e respeito, mas também entendendo que crítica de cinema e jornalista cultural com especialização em cinema precisa continuar tendo seu espaço, por realmente serem profissionais que fazem coberturas, entrevistas, resenhas e acompanharem festivais e mostras, então eu sinto que essa precarização parte muito de quem nos contrata para prestar serviço, das assessorias, produtoras, distribuidoras, mas também parte um pouco de nós. Se existem profissionais que aceitam fazer um trabalho de mediação por um valor irrisório, acaba que nivela o nosso trabalho para baixo e isso é péssimo, porque a gente já luta muito para que esse trabalho seja precificado.
Acredito que nós, mulheres, também precisamos ter um pensamento de classe, entender que ainda disputamos um espaço exíguo, uma vez que é ocupado em sua maioria por homens que encontram maior facilidade para entrar no meio, enquanto nós trilhamos um caminho muito mais complexo com questões que nos acompanham, responsáveis por atrapalhar e prejudicar a construção da nossa carreira profissional, como a síndrome de impostora, por exemplo.
Em resumo, precisamos enxergar-nos como classe, exercitar a sororidade e também nos profissionalizar; assim nós nos fortaleceremos enquanto mulheres na crítica cinematográfica e que produzem pensamento crítico sobre o cinema.
Onde conferir o trabalho da Lorenna Montenegro: Kinemacríticas
Natália Bocanera
A crítica de cinema talvez seja, hoje, das mais gratificantes, e, ao mesmo tempo, das mais ingratas carreiras. Realiza-se individualmente (pois falar sobre cinema envolve, invariavelmente, amor), mas o reconhecimento coletivo e, sejamos realistas, a recompensa financeira, são penosos e privilégio para poucos. A necessidade de manutenção de privilégios, nota-se, pesa para desfavorecer a crítica de cinema em gênero e raça, e consequentemente, empobrece os pontos de vista.
O que predomina na crítica cinematográfica ainda é a visão masculina e branca. São essas as mais disseminadas, as que fluem mais facilmente pelas redes. O espaço para mulheres é restrito – em que pese hajam muitas mulheres sensacionais na crítica, são poucas as que conseguem se destacar. A desproporcionalidade é visível aos olhos. Quando falamos em raça e gênero, os espaços reduzem-se ainda mais: conta-se nos dedos as profissionais negras de nossa área.
Pensando uma visão de futuro, torço para que dados estatísticos que apurem diferenças de gênero e raça na crítica de cinema possam ser uma realidade, pois, certamente, é o primeiro passo para a busca por algum equilíbrio. Torço, ainda, para que o reconhecimento de nosso trabalho se amplifique, de forma que a crítica seja devidamente remunerada por seu (intenso e relevante) trabalho. Anseio, por fim, que os espaços de privilégio ocupados por poucos sejam vistos como tal, para que haja abertura para novas perspectivas e pluralidade de narrativas.
Onde conferir o trabalho da Natália Bocanera: Coletivo Crítico
Yasmine Evaristo
Fiquei refletindo bastante sobre o necessário para os próximos anos (dois ou mais) e cheguei a conclusão que é preciso uma constante valorização do trabalho feiro por mulheres. E isso, na verdade, é algo que deve ser mantido para manutenção da equidade:
– Conhecer os projetos de mulheres envolvidas no audiovisual;
– Ler livros que apresentam nomes, obras e histórias de diretoras;
– Acompanhar e incentivar o trabalho de mulheres críticas, pesquisadoras, teóricas;
– Participar de comunidades que promovem o reconhecimento do trabalho das mulheres.
E tudo isso sem tomar para si (no caso dos homens) o protagonismo.
Onde conferir o trabalho da Yasmine Evaristo: Feito por Elas


















