É uma guinada estranha esta a que o diretor Osgood Perkins dá em sua carreira com “O Macaco”. Após o grande sucesso obtido com o soturno “Longlegs”, Perkins deixa de lado o tom sóbrio e parte para a sanguinolência escrachada em seu novo filme.

Estranha porque o longa de 2024 sugeria uma presença por trás das câmeras que, mesmo com um controle formal inegável, parecia limitado demais em seu senso de auto-importância para ser capaz de mergulhar nas searas mais cômicas do horror. Dito e feito: “O Macaco” mostra que, de comédia, Perkins não entende é nada. 

Naturalmente, falta ao cineasta bom senso para reconhecer suas limitações — assim, Perkins é o único roteirista creditado nesta adaptação de Stephen King. Pena, porque nenhuma de suas piadas funciona. Sendo o caso, Perkins acaba apelando para caricaturas genéricas, como a do reverendo meio doidão ou do chefe meio doidão ou do capanga meio doidão, etc. Percebe-se que o arsenal cômico do sujeito é limitado.

Resta a sangueira. “O Macaco” encontra o pretexto para encenar mortes mirabolantes no brinquedo do título, um boneco de corda que provoca as mortes mais estapafúrdias sempre que alguém o faz rufar seu tambor. Theo James está no centro da trama em papel duplo como o acanhado Hal e seu gêmeo malvado, Bill, que descobrem o poder maléfico daquele símio mecânico ainda na infância. Após uma grande tragédia familiar, ambos se tornam adultos emocionalmente atrofiados, até que o brinquedo reaparece em suas vidas. 

Portanto, o pastelão das mortes estapafúrdias — decapitação em restaurante japonês, pisoteamento por cavalos selvagens, esmagamento por bola de boliche etc — coexiste com uma possível dramaticidade na relação dos irmãos. James até que se entrega nos papéis, mas falta a Perkins o controle tonal para fazer a coisa dar certo. Na verdade, parece até que o diretor está no modo piloto automático: das piadas rasteiras às mortes que chegam sem suspense ou impacto, tudo é protocolar. Exemplo maior disso: a narração em primeira pessoa engraçadinha, que comenta e comanda a ação com direito a freeze frames e coisas do tipo.

Não que “Longlegs” fosse grandes coisas, mas havia ali um diretor capaz, sim, de criar sequências de suspense e uma atmosfera geral de inquietação. Aqui, o brilho se dissipou. É importante não se levar a sério — exceto quando isso é uma desculpa para entregar algo medíocre.

Autor

  • Marcos Faria

    Marcos Gabriel Faria é artista visual e cineasta baseado no Rio de Janeiro, RJ. Graduado pela UFF em Cinema e Audiovisual, é um dos criadores, ao lado de amigos da graduação, do blog Conversas de Bandejão, para o qual também contribui com textos sobre cinema e arte em geral.

    Ver todos os posts