Após a consagração mundial de Parasita (2019), o cineasta sul-coreano Bong Joon-Ho ficou com o mundo a seus pés, e sabemos que há duas coisas das quais ele gosta muito em seu cinema: fantasia e satirizar o capitalismo. Ele volta a unir essas duas facetas em Mickey 17, uma mistura de comédia, ficção científica e aventura, que é o terceiro longa do diretor em língua inglesa, depois de Expresso do Amanhã (2013) e Okja (2017).
A diferença é que, agora, embora o filme seja do sul-coreano, quem brilha mesmo é o seu ator principal, Robert Pattinson.
Ambientado em um futuro próximo, no qual a precarização do trabalho foi ao espaço junto com os bilionários egocêntricos, acompanhamos Mickey (Pattinson), um rapaz endividado e sem perspectivas na Terra. Para fugir de mafiosos, ele aceita se inscrever como “descartável” em uma expedição para um planeta congelado, comandada pelo bilionário Kenneth Marshall (Mark Ruffalo) e sua esposa Ylfa (Toni Collette). Isso significa que ele será literalmente copiado, e seus clones serão colocados para morrer ao executar tarefas perigosas ou se expor a ambientes tóxicos, tudo em nome da humanidade. Mas Mickey se apaixona e, então, se depara com uma cópia dele ligeiramente diferente, o que vai despertar o caos na expedição.
Baseado no livro de Edward Ashton, Mickey 17 é um projeto perfeito para Bong Joon-Ho e seu toque, o qual resultou em Parasita, o melhor filme sobre a confusão em que vivemos hoje. Mickey 17 é engraçado — muitas vezes com um humor sombrio — e com ritmo rápido, sendo um trabalho excepcional de efeitos visuais e concepção de design. A primeira metade do filme é brilhante, quando rimos — às vezes nervosamente — dos problemas pelos quais nosso protagonista passa.
Porém, na segunda metade, o roteiro — de autoria do próprio diretor — começa a perder o gás. Algumas decisões questionáveis de trama aparecem, e certos personagens começam a exibir motivações frágeis. Chega a um ponto em que o espectador começa a se questionar sobre o que está acontecendo e como chegou a esse momento da história. O charme do início se perde, e Mickey 17 começa a parecer com um carro bonito que ficou sem combustível ao longo do trajeto e chegou ao final só pela inércia.
Além disso, o longa passa às vezes a sensação de que seu autor está se repetindo: temos aqui vários ambientes escuros e fechados como em Expresso do Amanhã, criaturas esquisitas como em O Hospedeiro (2006), considerações ambientais e personagens bizarros como em Okja — as figuras de Ruffalo e Collette, embora divertidas a princípio, acabam se tornando cansativas com o tempo. Mickey 17 em alguns momentos transmite uma sensação meio decepcionante de ser um “pote-pourri” de obras e ideias passadas do seu diretor.
Mas uma coisa permanece irretocável do início ao fim: a brilhante atuação — ou seriam atuações? — de Robert Pattinson. Sua composição de personagem é algo para se aplaudir: maluca e de acordo com a proposta do filme. Sua cara de pateta, a vozinha anasalada e alguns trejeitos quase “Didi Mocó” fazem de Mickey 17 um personagem incrível. Já o Mickey 18 é totalmente diferente: é mais sério e confiante, e só pela postura corporal Pattinson consegue diferenciar um do outro, ajudando o espectador a não se perder. A essa altura do campeonato, acho que não deve haver mais muitas pessoas que duvidem do talento dele. Mas é só assistir a Mickey 17 que qualquer questionamento sobre Pattinson deve se dissipar.
É difícil não concordar com a visão satírica de Bong Joon-Ho sobre o modo como vivemos — ou parece que viveremos daqui a uns 30 anos. Porém, assim como em Okja, dessa vez faltou um pouco mais de refinamento na articulação dessas ideias. Seu melhor filme em língua inglesa continua sendo o subestimado Expresso do Amanhã.
Ainda assim, Mickey 17 diverte pelo clima maluco e, principalmente, pela presença e pelo trabalho de Robert Pattinson. O que ele faz aqui é simplesmente fantástico. É o caso clássico de “venha ver pelo diretor vencedor do Oscar, mas fique por causa do ator”.












