Certa vez, escrevendo sobre Leonard Cohen, o crítico musical Robert Christgau disse que admira os discos do bardo canadense mais do que os escuta de fato. O mesmo pode ser dito sobre a relação deste crítico com o diretor Steven Soderbergh: admiro seus filmes ou, melhor dizendo, respeito-os à distância, mais do que procuro assisti-los.
Admiro em Soderbergh o ímpeto de seguir trabalhando, o mesmo ímpeto que o fez abandonar seus planos de aposentadoria há mais de uma década, e que, desde então, tem se traduzido em uma busca pelos limites do digital em pequenos playgrounds do cinema de gênero. Admiro-o, porque admiro qualquer um que tenha essa curiosidade e senso de desbravamento pelo artifício cinematográfico — mas vamos combinar que nem sempre essa busca rende os melhores resultados.
Isso significa que, se ficarmos apenas na última década de sua carreira, ele pode passar do agradável (“Logan Lucky“, por exemplo, ou “Let Them All Talk“) ao facilmente esquecível (digamos, “Kimi” ou “High Flying Bird“). A impressão que dá é que, irrequieto, Soderbergh tenta a todo custo se manter em movimento, mesmo que isso signifique filmar qualquer roteiro que apareça à sua frente.
Motivo pelo qual David Koepp, que, como roteirista, não passa de um burocrata competente, é um parceiro criativo mais que apropriado para ele. Koepp é obviamente um sujeito que gosta de trabalhar e certamente pode escrever um roteiro que vá do ponto A ao ponto B dentro do prazo estipulado. Às vezes isso resulta em bons filmes — o primeiro “Homem-Aranha” de Sam Raimi, o primeiro “Missão: Impossível“, meu amado “Olhos de Serpente“…; outras vezes, em filmes agradavelmente passáveis (“Perigo Sob Encomenda”, o supracitado “Kimi”). E há, finalmente, aquelas vezes em que seus roteiros rendem filmes horrendos (o último “Indiana Jones“, o malogrado “A Múmia“, com Tom Cruise…).
O que todos esses títulos têm em comum? Simples: todos são filmes, todos passam na tela à sua frente, e você definitivamente pode assisti-los. Pronto: termina por aí a contribuição de David Koepp para a arte cinematográfica. Agora, pegue alguém com a capacidade de pensar através do cinema — um De Palma, um Spielberg — e talvez você consiga tirar um “Guerra dos Mundos” do papel. A pergunta que fica, então, é: seria Soderbergh capaz de pensar através das imagens?
A resposta é: provavelmente não. O que não significa que Soderbergh seja um sujeito sem talento. Mas temos a impressão de que o diretor está mais do que satisfeito em empreender seus experimentos formais e encerrar o dia, motivo pelo qual seus filmes apenas parecem… meros experimentos formais. Isso significa que até mesmo um grande filme de ação como “À Toda Prova” não deixa de ter um quê de pretensão auto-centrada — e, paradoxalmente, explica por que seus melhores projetos têm aquele ar fácil e despojado, como sua trilogia dos “vários homens com inúmeros segredos etc.”.
Explicando melhor: Soderbergh está interessado no processo, na própria feitura, e seus projetos podem naufragar ou não a depender de seus performers (Gina Carano e um elenco de astros se porrando em “À Toda Prova”, a nata masculina de Hollywood na franquia “Onze Homens”) e de seus roteiros.
O que nos traz a este Presença. A distribuidora Neon tem tentado vender o projeto como um filme de terror; não é o caso, apesar da “presença” do título se referir a um fantasma. O filme está mais para um melodrama familiar sobre o clã capitaneado por Lucy Liu, que muda de casa após a filha mais nova passar por eventos traumáticos. A família, porém, logo descobre que o lugar já é habitado — no caso, por algum tipo de espírito ou entidade a flutuar pelos corredores.
Aqui entra em ação o formalismo do diretor: o longa é rodado inteiramente do ponto de vista do fantasma, em longos takes sem cortes, com a câmera zanzando de um lado para o outro dentro da casa. Essa já é a primeira pista para sabermos que não é no terror que Soderbergh está interessado: afinal de contas, se nosso olhar se confunde com o do fantasma, então não há qualquer mistério sobre a natureza daquela presença, nem sobre em que canto escuro da casa o sobrenatural pode aparecer.
É essa própria abordagem visual que enterra não só as pretensões de suspense, mas de qualquer fruição estética. Eu admiro (e essa tem sido a palavra-chave do texto) os esforços do cineasta em filmar usando iPhones em High Flying Bird e Unsane (feito que já havia sido realizado por Sean Baker em Tangerine, diga-se de passagem), por exemplo. Mas é um pouco mais difícil nutrir esse tipo de respeito resignado aqui quando o resultado final é tão feio.
Em Presença, a câmera está sempre em movimento, como uma espécie de dispositivo etéreo flutuando pela casa. Soderbergh, que é seu próprio diretor de fotografia, está usando grandes angulares que distorcem o espaço para fazê-lo caber dentro do frame. A cada vez que a câmera realiza uma pan, a imagem se torna um borrão repuxado de deixar a gente nauseado. É horrível.
E, como essa aposta formal compreende todo o interesse de Soderbergh no projeto, ficamos à mercê daqueles dois elementos redentores: os performers e o script. Quanto à primeira categoria, todos são competentes. O destaque é Chris Sullivan, ator que eu não conhecia, e que aqui é comovente como o pai compreensivo e amoroso.
Agora, quanto ao roteiro, o buraco é mais embaixo. Koepp, que nunca foi nenhum Guimarães Rosa, decidiu plantar solilóquios estilizados nas bocas de seus personagens. Lucy Liu se equilibra na corda bamba em uma cena, ainda no início do filme, em que faz confissões embriagadas para seu primogênito. Mas o mais embaraçoso mesmo fica reservado para um sujeito de nome West Mulholland. Você não o conhece, mas aqui ele interpreta o adolescente Ryan, interesse amoroso de Chloe, a filha mais nova e sensitiva interpretada por Callina Liang. O pobre rapaz precisa se virar como pode com algumas das combinações de palavras mais tolas já postas no papel.
Quando o amargurado rapazola, confessando ser mero joguete na mão dos pais, começa a se referir a si como “Robô Ryan 9000”, fica claro que Koepp não tem nenhuma interação com um adolescente desde pelo menos os anos 1960. Nem mesmo o mais esforçado dos atores pode salvar um texto desses, e olha que o tal Mulholland chora, faz beicinho e tudo o mais.
Mas Soderbergh não se importa. Ele fez seu experimento e está pronto para o próximo (seu novo filme, Black Bag, já estreou nos Estados Unidos). Ele é como uma criança ateando fogo em formigas só para ver o que acontece — e nós somos as formigas. Se há algo a ser apreendido disso tudo, é que a admiração do público também tem limites.














