Em Holland, Mimi Cave (Fresh), mais uma vez, explora questões que assombram não apenas o imaginário, mas também a realidade de várias mulheres, criando um thriller familiar que, apesar do elenco estelar e interessante, é anêmico – com pouca expressividade e excessivamente regular. Entendo que o roteiro queira discutir a segurança – ou a falta dela – dentro de um ambiente controlado, mas a narrativa falha diante de personagens apáticos e confusos, além de um fio condutor que nunca atinge o clímax.
Nicole Kidman interpreta uma típica dona de casa norte-americana que começa a desconfiar das viagens a trabalho, cada vez mais frequentes, do esposo Fred, o eterno Sr. Darcy, Matthew Macfadyen. Entre a desconfiança de que esteja sendo traída e as reais intenções de seu companheiro, ela se envolve com Dave (Gael García Bernal), o único homem latino da idílica Holland, que ouve seus lamentos, acredita em suas histórias e se apaixona por ela. Nesse caminho, Holland utiliza cada um dos personagens como figuras representativas das discussões que o filme pretende suscitar.
Nancy é a típica dona de casa adepta à visão patriarcal: vive em função da família, extremamente organizada, meticulosa e exigente em relação ao lar, que deve ser exemplar. A partir desse olhar, a personagem é autocentrada e um tanto irritante, diante das suas fantasias, inseguranças e apoio constante na figura masculina.
Neste perfil, seu marido se apresenta como o homem público de referência da comunidade, um pai amoroso e atencioso, o marido com comportamento carinhoso suspeito — gosta de dar presentes, manipula a esposa e acha que a melhor coisa que fez pela família foi ela se dedicar totalmente ao lar. Essa fachada bem aceita socialmente — e até pelo público, uma vez que, na primeira parte de Holland, Nancy é a esposa estraga prazeres e fanfiqueira, o que a distancia do espectador — esconde um serial killer, cujas motivações não são bem exploradas nem aplicadas, mas que exacerba o quanto Macfadyen tem se tornado especialista em interpretar homens ambíguos.
Mais do que isso, no entanto, Fred simboliza a cidade de Holland — o que é evidenciado pela miniatura da cidade em sua garagem e pelo quanto ele é zeloso em relação a ela —, sendo gentil e compreensivo, enquanto deixa sua verdadeira face aparecer em fragmentos, como quando comenta, sem querer, sobre as inseguranças de Nancy, enfatizando essa característica e transpondo-a para a personagem. Isso a confere ainda mais a tal loucura e histeria feminina, tão populares nos matrimônios do século 19. Nancy é tratada por ele como um fantoche, disponível para servi-lo e fazer o que ele quiser. A mesma ação que a cidade pratica com seus habitantes.
Assim, Dave surge como o terceiro ponto da equação. O personagem serve para mostrar como a bucólica Holland não é o paraíso que seus moradores nativos, descendentes de europeus, querem vender. De certa forma, ele deveria representar os fragmentos reais de Holland, tal qual o comportamento de Fred em relação a Nancy, mas o roteiro é relapso nessa construção, deixando-a solta e permitindo que o público faça as devidas conexões. Sendo o único latino a habitar a cidade, ele é visto e tratado como um outsider.
A fotografia o coloca ocupando um espaço menor do que os outros personagens ou mais distante deles, o que evoca o quão distante ele está do cidadão norte-americano representado por Fred. Neste sentido, é interessante como sua existência dentro da narrativa visual se torna uma incógnita conforme a trama avança e as perspectivas de Nancy se transformam.
Vale dizer que o elenco é o ponto alto do filme de Mimi Cave, aliado à estética visual adotada. A paleta fria, as sequências oníricas que evidenciam o deslocamento e despertar da protagonista, e os planos que transmitem a sensação de que há algo errado na atmosfera da cidade e daquele lar. No entanto, a trama nunca se desenrola para alcançar um ápice. É como se sua linearidade e a obsessão de Nancy sempre puxassem para baixo algo que tinha potencial para ser desenvolvido, o que torna Holland um filme anêmico, de tom morno, que não encontra espaço dentro do próprio gênero. Aliás, encontra, só não consegue sustentar.













