Adaptar jogos para o cinema sempre foi uma tarefa delicada. Exige sensibilidade para reconhecer o que funciona em uma linguagem e coragem para transformar o que precisa ser recriado. Em Until Dawn, dirigido por David F. Sandberg (Annabelle 2: A Criação do Mal), esse dilema se manifesta de forma clara: o filme não quer ser apenas uma cópia do jogo, mas também hesita em dar um passo mais ousado. O resultado é uma obra que se equilibra entre as armadilhas da fidelidade e as possibilidades do cinema.

A trama parte do mesmo ponto do jogo lançado em 2015 — um grupo de jovens em uma cabana isolada, segredos mal resolvidos e algo sinistro espreitando pela floresta. A produção da PlayStation Studios conta com uma equipe já habituada aos filmes de terror mais comerciais e acessíveis, como Gary Dauberman (Annabelle 3, A Hora do Vampiro) e Blair Butler (Convite Maldito). Apesar de não ser uma visão que eu particularmente aprecie, a experiência desses roteiristas em criar filmes de fácil consumo acaba ajudando o longa a não se perder em um excesso de complexidade e a manter o público mais amplo engajado.

O filme tem um tom curioso desde o início, quase como se já fizesse parte de um universo previamente estabelecido, o que pode causar estranheza logo de cara. No entanto, esse sentimento logo se dissipa à medida que a narrativa se desenrola. O que inicialmente parece um enigma desnecessário começa a funcionar ao apresentar estereótipos familiares dos personagens — aquele “grupo de amigos” com suas funções quase míticas em filmes de terror. Esse lugar-comum acaba sendo algo com que o espectador pode facilmente se relacionar, e é aqui que Until Dawn encontra sua força. Há algo de O Segredo da Cabana (2012) no tom: ambos os filmes brincam com as convenções do gênero, mas sem cair na paródia explícita, como vimos em Goddard. Apesar de Until Dawn ser mais sério, ele também consegue transmitir uma sensação de diversão ao mesmo tempo em que esses estereótipos se tornam a base sobre a qual a história se desenvolve.

Quando comparado a outras produções da própria PlayStation, Until Dawn encontra um meio-termo curioso: Uncharted, por exemplo, tenta tanto seguir o jogo passo a passo que se limita a uma colagem de cenas e eventos, sem criar algo que realmente funcione dentro da linguagem do cinema. O mesmo pode ser dito da série The Last of Us, que parece mais preocupada em replicar quadro a quadro a experiência do game do que em reinterpretá-la cinematograficamente. São adaptações tecnicamente impecáveis, mas que muitas vezes parecem vazias de personalidade própria. Já Gran Turismo adota outra abordagem: brinca com a estrutura narrativa e expande o conceito do jogo com liberdade e diversão. É uma adaptação que entende o cinema como meio, e não como vitrine fiel do material original.

Until Dawn caminha entre esses extremos. É conduzido por um diretor competente, que consegue brincar com o tempo e explorar a repetição de forma visualmente instigante. No entanto, o próprio filme parece cansar de sua proposta antes do espectador. O mistério é resolvido rápido demais, e até quando um personagem verbaliza o tempo exato preso no looping, falta uma mise-en-scène que realmente traduza esse desgaste. A decupagem não acompanha o peso que a história tenta comunicar.

Essa assinatura do diretor se revela especialmente no modo como ele explora os espaços da casa onde o terror se instala. Sandberg sabe apresentar o ambiente aos poucos, criando uma familiaridade que não depende apenas da antecipação dos sustos. Os jump scares até aparecem — alguns funcionam, outros nem tanto —, mas o mérito está na construção do clima. É uma qualidade que o acompanha desde seu primeiro curta, Quando as Luzes se Apagam, onde já articulava bem o uso da escuridão, da atmosfera e da tensão crescente. É curioso notar como esse domínio técnico foi parcialmente diluído em suas passagens por grandes estúdios, como nos dois filmes do Shazam, onde o visual e o ritmo precisavam seguir regras mais rígidas. Until Dawn parece, então, uma tentativa de reencontro: um retorno ao terror mais controlado, de atmosfera mais densa — mesmo que o resultado ainda revele um cineasta que oscila entre a visão autoral e as exigências de um produto mais padronizado.

É quase inevitável não lembrar de O Segredo da Cabana (2013) ao assistir Until Dawn. Ambos os filmes partem de premissas semelhantes e mergulham nas estruturas clássicas do terror adolescente com certo grau de consciência. No caso do filme de Drew Goddard, a brincadeira é mais escancarada: há um tom parodial evidente, que transita entre o horror e o humor de forma fluida e engenhosa, sem perder a mão. Já Until Dawn opta por um caminho um pouco mais sério, evitando a sátira aberta, mas ainda assim consegue provocar no espectador uma sensação parecida de diversão. Essa comparação, longe de diminuir o filme de Sandberg, apenas destaca como ele entende bem os códigos do gênero e sabe usá-los a seu favor. Mesmo quando tropeça na repetição ou apressa certas revelações, há um senso de jogo — de brincadeira com o tempo, com os clichês, com as escolhas — que remete diretamente à experiência original do game e ao prazer de se estar dentro de uma narrativa que se dobra sobre si mesma.

No fim das contas, Until Dawn é um filme que se diverte com sua própria proposta — e permite que a plateia embarque junto, ainda que tropece nas próprias repetições. Funciona melhor como uma introdução ao universo do jogo do que como um mergulho mais profundo nas possibilidades da linguagem cinematográfica. É um exemplar interessante deste momento em que adaptações de games tentam se firmar em Hollywood e, mesmo que não acerte tudo, revela um diretor que, aos poucos, parece redescobrir o prazer de contar histórias onde a escuridão não é apenas cenário, mas também um campo aberto para criar tensão, presença e — quem sabe — identidade.

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