Vamos voltar um pouco para a Grécia Antiga, precisamente à época de Sócrates (470 a.C.). Como se sabe, “o filósofo dos filósofos” (Nietzsche discordaria completamente) não deixou escritos, em uma época em que a oralidade era a principal forma de transmissão do conhecimento. Suas ideias chegaram até nós por meio de seu discípulo, Platão (428 a.C.), também ateniense, que registrou as “aulas” de Sócrates em obras atemporais — entre elas, a mais famosa: A República. Não vou me aprofundar nesta obra, que considero obrigatória pelos temas discutidos, ainda relevantes após centenas de anos.
A questão é que, em determinada parte do livro — precisamente nos livros II, III e X —, Sócrates discute a importância e a necessidade da arte. Claro, não sem antes apresentar duras críticas a ela. Para ele, segundo Platão, a arte é uma imitação (mimese), isto é, uma representação imperfeita da realidade sensível. A expressão artística de um pintor, por exemplo, ao retratar em sua tela um vasto campo florido, seria apenas uma cópia da realidade, incapaz de captar sua essência.
Essa breve introdução serve para apresentar o filme Arte, Amor e Ilusão (2003), título nacional de The Shape of Things, dirigido e roteirizado por Neil LaBute — autor também do excelente A Enfermeira Betty, que, a meu ver, extraiu a melhor atuação da carreira de Renée Zellweger. O filme é uma adaptação cinematográfica de uma peça de teatro de LaBute, encenada com sucesso no início do século com o mesmo elenco.
Adam (Paul Rudd) é um jovem estudante nerd, metódico, tímido e um “patinho feio” (Paul Rudd, um patinho feio, ok!). Trabalhando como segurança em um museu, ele conhece a desbravadora artista Evelyn (Rachel Weisz), que luta por uma arte menos robusta e mais disruptiva. Eles iniciam um romance e, aos poucos, Adam vai se moldando em função de sua amada. Seus melhores amigos, o casal Jenny (Gretchen Mol), doce e recatada, e Phillip (Fred Weller), expansivo e um tanto machista, percebem a transformação e passam a questioná-lo. O embate principal se dá entre Adam, Evelyn e Phillip, que não aceita de bom grado a mudança do amigo, que passa a usar roupas mais modernas, cortar o cabelo, fazer plásticas e trocar seus inseparáveis óculos por lentes de contato. E a transformação não é apenas externa: Adam desenvolve autoconfiança e um certo individualismo típico do homem cis hétero (!). Até que chegamos ao momento-chave do filme.
Voltamos a Sócrates. Até que ponto a arte deve ser encarada como manifestação da realidade? Se a arte é uma mimese, então ela manipula nossa percepção do mundo e de nós mesmos? Somos moldados? Indo além: pode existir uma arte ética, principalmente quando se interfere na forma e, talvez, na essência do ser humano?
Se essas perguntas parecem impossíveis de responder, culpe LaBute. O autor explora a questão da manipulação da performance acima de todas as coisas — a forma sem essência —, sem emitir juízos de valor. O que ele propõe, nesta falsa comédia romântica, é uma provocação artística, ética e estética sobre os usos da arte e, ainda, sobre as performances sociais convencionais impostas como padrão a ser seguido. Seriam essas performances e as intervenções corporais também uma mimese do verdadeiro eu? E onde se encontra esse verdadeiro eu quando colide com formas inconscientemente impostas? Será que, no fim das contas, Phillip, o machista e expansivo, estava certo?
Perceba que há muitas perguntas neste texto — é proposital. As provocações são válidas quando há o que discutir e refletir. Um mérito de LaBute. Por ser uma adaptação de teatro, o filme apresenta cenas longas, com diálogos consistentes que se conectam ao contexto geral proposto pelo diretor. Nesse sentido, os aspectos técnicos do longa — suas cores ora frias, ora quentes, e uma trilha sonora envolvente — passam quase despercebidos diante da força do texto, muito bem sustentado pelo quarteto de atores, especialmente Rachel Weisz, que transita com naturalidade entre a leveza, o mistério e a dubiedade de sua personagem.
Sócrates, certamente, não seria um dos maiores entusiastas da sétima arte, mas seu legado permanece atual. O texto de LaBute bebe da fonte da filosofia — e há diversas outras abordagens sobre a arte, como a de Aristóteles, que também valem ser exploradas. Considerando que o texto original da peça é do início do século, talvez LaBute não esperasse que ele ainda fosse tão pertinente em um mundo moldado pelo neocapitalismo, pelas novas tecnologias e pelas redes sociais, que transformaram tudo numa grande mimese de um eu simbólico corrompido pelo consumismo e pela estética.
E a essência, por onde anda?
Estamos todos consumidos pela mimese.













