É preciso lembrar com constância que o Maranhão faz parte da Amazônia Legal. Na expansão desse olhar, percebemos o quão próximas estão a cultura, os encantados, os anseios e os esquecimentos que atuam sobre esse estado nordestino daquilo que vivemos no Amazonas — e ainda como sua fauna e flora complementam as questões ambientais, sociais e culturais que cercam a vastidão do território amazônico. Tais percepções são pontos interessantes para a compreensão de Betânia, filme dirigido por Marcelo Botta.
Somos levados a um vilarejo perto dos Lençóis Maranhenses. A pessoa que nos guiará nessa narrativa tem o mesmo nome do filme e simboliza a essência do que Botta quer discutir. Interpretada por Diana Mattos, acompanhamos as transformações que Betânia vivencia após perder o marido para o “sal” e ter que abandonar a casa onde morou a vida inteira, para poder estar mais próxima dos filhos e dos netos. Nesse processo, é interessante como o contraponto entre tradição e modernidade funciona como eixo dicotômico que rege a narrativa.
A força de Betânia
O espaço — o deserto de areia maranhense — termina por ser o ponto de fusão para que a dicotomia citada floresça. Por um lado, Betânia cresceu nesse meio, casou-se, lutou pela energia elétrica, teve seus filhos e enterrou a filha e o amado. As areias fazem parte de si, do que a constitui. Ela está imersa na tradição, mas isso não a impede de estender os braços para a modernidade que ronda seus netos.
Assim, a protagonista demonstra a força e o simbolismo que há em seus conflitos e dilemas. Não querer sair do lugar que construiu é se manter presa aos ditames que a formaram; no entanto, aceitar que precisa partir é estar disponível para novos caminhos. Penso que o fato de ela, enquanto cidadã, ter lutado pela energia elétrica e, enquanto profissional, ser uma parteira — alguém que dá literalmente à luz — carrega um simbolismo latente e silencioso sobre a força que Betânia possui e seu preparo para adentrar um ambiente que não lhe é familiar, que não lhe pertence.
Se o foco fosse unicamente nela, Betânia seria uma produção interessante, com muitas camadas a serem observadas. No entanto, o roteiro mergulha em outras histórias, adjacentes à protagonista, que tomam parte da narrativa, limitando o tempo de tela de Betânia. Ela se torna uma mãe/avó conciliadora, uma avó referência e uma sogra compreensiva; mas sua história não avança, estagnando-a em um horizonte de repetições que, embora representem conflitos nos quais a tradição antagoniza a modernidade — como conflitos geracionais, visão trabalhista, vida religiosa —, acabam por se tornar caricatos e repetitivos.
Num mar de oralidade
Um dos aspectos da tradição que se destaca em Betânia é a oralidade. O filme é carregado de músicas, cantigas e versos, que revelam como esse viés é latente no município retratado e atravessa a vida de todos os personagens, seja em velórios, festividades ou no dia a dia. A sonoridade está presente em cada cena, e a música se torna mais um personagem a acompanhar a protagonista e o desenrolar de suas escolhas.
O cenário e a fotografia de Bruno Graziano complementam a beleza natural da projeção. Optando por utilizar cores que tangenciam o calor amazônico e a amplitude do deserto maranhense, as imagens são um espetáculo à parte e evidenciam como a vida dos personagens está interligada ao território em que habitam — além de ser mais uma testemunha da dicotomia entre tradição e modernidade.
Há beleza nas tradições maranhenses — seja na musicalidade, nas imagens, nas histórias ou na própria vivência de Betânia. A cada vez que o diretor permite que sua câmera mergulhe em um desses aspectos, seu filme cresce, se potencializa — e é nisso que reside a potência de Betânia.














