Deprecated: Automatic conversion of false to array is deprecated in /home/cinesetc/public_html/wp-content/themes/Extra/core/functions.php on line 1469

É preciso lembrar com constância que o Maranhão faz parte da Amazônia Legal. Na expansão desse olhar, percebemos o quão próximas estão a cultura, os encantados, os anseios e os esquecimentos que atuam sobre esse estado nordestino daquilo que vivemos no Amazonas — e ainda como sua fauna e flora complementam as questões ambientais, sociais e culturais que cercam a vastidão do território amazônico. Tais percepções são pontos interessantes para a compreensão de Betânia, filme dirigido por Marcelo Botta.

Somos levados a um vilarejo perto dos Lençóis Maranhenses. A pessoa que nos guiará nessa narrativa tem o mesmo nome do filme e simboliza a essência do que Botta quer discutir. Interpretada por Diana Mattos, acompanhamos as transformações que Betânia vivencia após perder o marido para o “sal” e ter que abandonar a casa onde morou a vida inteira, para poder estar mais próxima dos filhos e dos netos. Nesse processo, é interessante como o contraponto entre tradição e modernidade funciona como eixo dicotômico que rege a narrativa.

A força de Betânia

O espaço — o deserto de areia maranhense — termina por ser o ponto de fusão para que a dicotomia citada floresça. Por um lado, Betânia cresceu nesse meio, casou-se, lutou pela energia elétrica, teve seus filhos e enterrou a filha e o amado. As areias fazem parte de si, do que a constitui. Ela está imersa na tradição, mas isso não a impede de estender os braços para a modernidade que ronda seus netos.

Assim, a protagonista demonstra a força e o simbolismo que há em seus conflitos e dilemas. Não querer sair do lugar que construiu é se manter presa aos ditames que a formaram; no entanto, aceitar que precisa partir é estar disponível para novos caminhos. Penso que o fato de ela, enquanto cidadã, ter lutado pela energia elétrica e, enquanto profissional, ser uma parteira — alguém que dá literalmente à luz — carrega um simbolismo latente e silencioso sobre a força que Betânia possui e seu preparo para adentrar um ambiente que não lhe é familiar, que não lhe pertence.

Se o foco fosse unicamente nela, Betânia seria uma produção interessante, com muitas camadas a serem observadas. No entanto, o roteiro mergulha em outras histórias, adjacentes à protagonista, que tomam parte da narrativa, limitando o tempo de tela de Betânia. Ela se torna uma mãe/avó conciliadora, uma avó referência e uma sogra compreensiva; mas sua história não avança, estagnando-a em um horizonte de repetições que, embora representem conflitos nos quais a tradição antagoniza a modernidade — como conflitos geracionais, visão trabalhista, vida religiosa —, acabam por se tornar caricatos e repetitivos.

Num mar de oralidade

Um dos aspectos da tradição que se destaca em Betânia é a oralidade. O filme é carregado de músicas, cantigas e versos, que revelam como esse viés é latente no município retratado e atravessa a vida de todos os personagens, seja em velórios, festividades ou no dia a dia. A sonoridade está presente em cada cena, e a música se torna mais um personagem a acompanhar a protagonista e o desenrolar de suas escolhas.

O cenário e a fotografia de Bruno Graziano complementam a beleza natural da projeção. Optando por utilizar cores que tangenciam o calor amazônico e a amplitude do deserto maranhense, as imagens são um espetáculo à parte e evidenciam como a vida dos personagens está interligada ao território em que habitam — além de ser mais uma testemunha da dicotomia entre tradição e modernidade.

Há beleza nas tradições maranhenses — seja na musicalidade, nas imagens, nas histórias ou na própria vivência de Betânia. A cada vez que o diretor permite que sua câmera mergulhe em um desses aspectos, seu filme cresce, se potencializa — e é nisso que reside a potência de Betânia.

Autor

  • Pâmela Eurídice

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (2018), integrante do Coletivo Elviras de Mulheres na Crítica Cinematográfica. Participou de duas edições do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (2018 e 2020), escreve para o Cine Set e produz conteúdo para internet.

    Ver todos os posts