Alejandra (Itsaso Arana) Alex (Vito Sanz), dois artistas do mundo do cinema, são um casal bem resolvido que, depois de 15 anos, resolvem se separar. Para celebrar esse momento, decidem dar uma festa para os amigos e familiares que os acompanham desde o início. Essa é a premissa básica de “Ao Contrário”, novo longa-metragem do diretor espanhol Jonás Trueba (“Os Iludidos”; “A Virgem de Agosto” etc.), vencedor do Prêmio Label Europa Cinemas da Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes 2024.

Essa comédia dramática às avessas de um desalinho alinhado na vida desse criativo par revela muito mais do casal uno do que o casal em suas individualidades. Apesar de distintos e com manias diferentes que são timidamente colocados em cena para distingui-los em suas particularidades, é a união dos dois pelos dois que chama a atenção. Até a bebida e o cigarro os fazem um só.

Ale e Alex são dois neuróticos que vivem afirmando que estão bem com a separação, um assunto amplamente debatido entre eles. As pessoas próximas custam a acreditar. A discussão fica muito mais no campo das trivialidades sobre filmes que assistem do que necessariamente sobre a decisão de viverem, agora, separados.

Nessa primeira imersão minha ao mundo de Trueba, não pude deixar de notar a forte influência de Woody Allen: o casal estiloso com um foco em comum – um homem de meia idade meio confuso, uma mulher decidida, ambos se gostam, amigos teorizam, a metalinguagem do cinema dentro do filme e, claro, citações filosóficas que resumem, ou não o contexto do enredo central. Há também homenagens à Nouvelle Vague em cenas pontuais em seus cortes abruptos que deixariam Godard e Truffaut orgulhosos – o segundo, inclusive, é homenageado quando o seu lugar de descanso eterno é mostrado enquanto o casal revê gravações do passado no auge do romance.

“Ao Contrário” é antítese de uma comédia dramática como estamos acostumados a acompanhar, pensando nessa separação/desgaste amoroso, mesmo que haja muita faísca entre eles. Mesmo com todas essas homenagens, incluindo à Bergman, senti falta de um roteiro mais consistente. Os personagens centrais são bons, mas sem o brilho e o aquele carisma caótico que Allen imprimia no auge de sua criatividade. Aqui, é tudo muito burocrático. E é só isso mesmo.