Leave One Day, filme de estreia da cineasta Amélie Bonnina, deu o pontapé inicial do Festival de Cannes 2025. Na trama, acompanhamos Cécile (a cantora Juliette Armanet, uma das mais populares da música francesa atual, em sua primeira atuação nos cinemas), uma chef em ascensão, prestes a realizar o sonho de abrir o próprio restaurante em Paris. Contudo, sua vida muda por completo quando descobre que está grávida e tem que retornar à cidade natal depois que seu pai (o ótimo François Rollim) sofreu um infarto.

No todo, o trabalho tem seu valor: é simpático dentro da sua história de redescobertas a partir de elementos humanos e sensíveis; apresenta personagens carismáticos, contando com um elenco cativante e, por fim, traz um olhar instigante sobre a rejeição feminina em torno da gravidez indesejada.

Dá para valorizar as boas intenções da diretora em discutir a necessidade da protagonista de se reconectar com suas origens para, dessa forma, lidar com as emoções pessoais – é interessante notar que, quanto mais ela tenta fugir da cidade, mais fica presa a ela – e, assim, se reencontrar como pessoa.

Amélie Bonnin consegue dar uma boa dinamicidade à narrativa ao utilizar um humor espirituoso que é beneficiado pelo timing do elenco (Juliette Armanet se destaca na estreia como atriz) e pelos diálogos afiados. Até os números musicais que surgem do nada e trazem divertidos elementos fantasiosos no intuito de quebrar a seriedade da temática (uma mãe que não deseja levar à frente a sua gravidez) revelam, nas entrelinhas do argumento, os conflitos e dilemas dos personagens sobre si mesmos, sendo que esses esquetes musicais – e que abordam músicas francesas de sucesso – seguem a mesma proposta brega vista no recente O Melhor Amigo, de Allan Deberton.

Se, por um lado, a proposta é boa, é na discussão que a comédia francesa perde a mão. Se a protagonista é uma chef de renome que entende de comida, falta exatamente tempero ao roteiro para apimentar melhor o contexto dramático do longa-metragem. O texto de Bonnina e Dimitri Lucas acaba por seguir a linha problemática de quase 80% das comédias francesas: tudo é previsível e didático nas próprias proposições, e grande parte do drama é desperdiçada. O melhor exemplo disso é a relação de Cécile com o pai, que, mesmo interessante, é desperdiçada pela falta de profundidade emocional em torno da relação entre os dois.

No fundo, Leave One Day, por mais humano e simpático que se mostre na sua história de reencontros e redescobertas, carece de ambição ao se revelar até mais careta em seu conservadorismo do que a sinopse indica. A escolha de abrir Cannes deste ano me parece mais uma forma de valorização, por parte do festival, em prestigiar o cinema francês e sua jovem cineasta do que trazer algo relevante. Como filme de abertura, ele abraça e celebra os clichês – algo que não espero encontrar nos demais filmes do festival.

Autor

  • Danilo Areosa

    Psicológo nas horas formais e cinéfilo compulsivo nas informais. É amante, colecionador e apreciador tanto do Cinema de Arte quanto dos Filmes B e de Horror. Ama Martin Scorsese, François Truffaut, Michael Mann e Alfred Hitchcock da mesma maneira que idolatra “Outsiders” como John Carpenter, George Romero, Dario Argento e Lucio Fulci. Afinal, como dito pelo genial Orson Welles: O Cinema não tem fronteiras, nem limites. É fluxo constante de sonhos.

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