Uma câmera é ligada, Rita Lee aparece e emite o que avisa ser um depoimento. A mensagem deste? A partir do dia 22 de maio (Dia de Santa Rita de Cássia), ela deseja que também seja o seu aniversário, porém, sem deixar de exercer o signo de Capricórnio, pois é do seu gosto.

Pois, agora, neste dia 22 de maio, o filme e documentário Ritas estreia e é com esse preâmbulo muito característico do humor afiado da cantora, que somos convidados a mergulhar numa viagem íntima e interessante pelo universo de Rita, aliás, de Ritas – a qual a obra visa abraçar e o faz com muita intensidade. Afinal, quando contada sua história, é mais do que justo optar em não seguir por caminhos convencionais sendo um exercício de respeito à própria personalidade da artista.

Assim, o diretor Oswaldo Santana, junto da co-diretora Karen Harley, sabendo desse viés, buscam destacar a imagem de Rita Lee Jones de Carvalho no alto de seus 70 anos, com o filme ilustrando as imagens de sua vida usando a sua narração como recurso, desde fotografias da infância às demais passagens de sua vida pessoal e artística. O roteiro escrito por Oswaldo, Karen e Fernando Fraiha oferece um passeio pela gama de aventuras e da descoberta musical de Rita, desde o início rebelde na juventude, a passagem famosa pelos Os Mutantes, a consagração musical da carreira solo, bem como a parceria amorosa e musical com Roberto de Carvalho que perdurou pelo resto de sua vida.

Ritas tem a verve de sua homenageada, ora vibrante, ora sereno, e com toda a carga especial existente, estabelece a identidade das determinadas fases da cantora de maneira deliciosa, criativa. Por exemplo, na fase inicial da carreira, a direção de arte e montagem emulam doses de psicodelia presentes, e toda essa imagética segue durante a obra. Pelo título, caberia pensar como existiriam diversas Rita Lee a serem pinceladas, e elas realmente estão, pulsam ali. Se houve alguém a conter traços subjetivos em sua faceta musical, Rita precisa ser destacada, falar sobre liberdade, sexo e demais em tempos tão distantes, ainda mais uma figura feminina, e o roteiro realça essa linha. Há um interesse em evidenciar como as personas tidas pela cantora nada mais são que as próprias redescobertas pessoais de uma mente única, além de um alinhamento musical que fora se acentuando com suas personalidades, seja com a lisergia de The Beatles ou a Bossa Nova encontrada em João Gilberto.

Como questões a se pontuar no documentário, creio que as escolhas de atravessar momentos importantes de sua vida de forma breve pode prejudicar àqueles que procuram um aprofundamento e maior contexto, nada a prejudicar o ritmo, apenas decisões de roteiro. De qualquer forma, Ritas é bela homenagem à maravilhosa Rita Lee, inspirado em ser como a natureza intensa e forte de sua criatura, o filme revela e engrandece a figura-artista, assim como apresenta um lado íntimo e reservado da figura-mulher.