Em Die My Love, a atriz Jennifer Lawrence e a diretora Lynne Ramsay, a mesma de Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011), parecem ter se dado bem: sob a orientação da cineasta, a estrela de Jogos Vorazes (2011) anda de quatro no chão como uma leoa, faz caretas, age loucamente, tira a roupa e chuta o balde em um novo papel de mulher surtada em sua carreira. Esta aqui, porém, tem uma eletricidade a mais.

No filme, ela interpreta Grace, uma mulher que se casou com Jackson (Robert Pattinson, em mais um papel no qual demonstra um certo prazer em ser ridicularizado em tela), se mudou com ele para uma casa isolada no meio do mato e juntos, tiveram um filho. Porém, algo parece errado nessa vida idílica: ela começa a apresentar comportamento errático e um desejo sexual intenso, além de desenvolver um interesse em um estranho (LaKeith Stanfield) que passa de moto por perto da sua casa. Com o tempo, Grace começa a ficar cada vez mais fora de controle, mas é verdade que o seu marido também não a ajuda.

É um drama sobre a condição feminina que aborda temas como depressão pós-parto, crise conjugal e o simples fato de que, para algumas, a maternidade pode ser mais uma maldição do que uma benção. Mas a diretora não está interessada em ser didática ou sutil em sua abordagem: em Die My Love, Grace é uma força da natureza, um tornado, e quando pira, só o que se pode fazer é sair do caminho. É um filme feroz, e essa ferocidade fica clara desde o início, com uma cena de sexo entre Jennifer e Pattinson ao som de música punk rock e imagens de uma floresta sendo incendiada. Assim como sua estrela, Lynne Ramsay também chuta o proverbial balde.

O longa consegue alternar com sucesso entre ser uma comédia de humor sombrio, um filme de terror – a ambientação da cabana isolada é típica do gênero – e um drama real sobre uma mulher que não aguenta mais ser apenas esposa e mãe. E ao fazê-lo, se torna um filme estranhamente divertido e envolvente, sem nunca estereotipar a protagonista, apesar do seu comportamento. Claro, também contribui muito para isso a atuação porra-louca de Jennifer Lawrence, que consegue aproveitar todos os momentos para injetar sensibilidade à personagem.

Há cenas de suspense – uma envolvendo um cachorro é tensa – e um ótimo trabalho de cinematografia de Seamus McGarvey, que brinca com sombras mesmo nas cenas iluminadas dentro da casa, quando cria belas composições na penumbra em momentos com Grace ou a sogra, vivida por Sissy Spacek. E o trabalho sonoro também merece destaque, pois há momentos de susto e surpresa conduzidos pelos sons.

Por isso mesmo, apesar dessas qualidades, é uma pena que Ramsay pareça não saber direito como encerrar o filme, que nos últimos 20 ou 30 minutos acaba saindo dos trilhos, com uma conclusão que apela para o surrealismo, mas deixa as coisas apenas confusas. Aí, fica claro que Die My Love parece mais interessado em explorar a psicose e a depressão de uma mulher do que realmente entendê-la. É o choque e a disposição para chocar que dirigem a abordagem de Lynne Ramsay e Jennifer Lawrence, e o filme delas extrai muita força disso. Mas talvez, um pouquinho menos de porra-louquice pudesse fazer de Die My Love uma vitória completa.