A sessão de lançamento de “Put Your Soul on Your Hand and Walk” da diretora Sepideh Farsi no Festival de Cannes foi marcada pela emoção. A apresentação que ocorreu no cinema Olympia, que fica fora do Palais – uns três minutos de caminhada – é parte do ACID, uma mostra paralela e que apresenta obras ousadas no Festival.
Se geralmente a procura pelos filmes da mostra possuem uma demanda pequena, os fatos que envolveram o documentário geraram grandes filas e uma enorme muvuca no local. O motivo foi a morte da fotógrafa palestina de 24 anos, Fatem Hassouna, protagonista, e que no dia 15 de abril deste ano, foi morta em Gaza por um bombardeamento israelense, juntamente com sete membros da sua família, antes mesmo de concluir sua participação no trabalho.
A sessão contou com a participação da diretora que conversou com o público sobre sua relação com Fatem, entre outros assuntos. Muitos aplausos e muita emoção tomaram conta da sala. A obra apresenta as conversas entre a diretora e a fotógrafa por meio de uma plataforma virtual no período de abril de 2024 até o dia da sua morte e que relatavam a vida na Palestina.
A relação maternal que Sepideh Farsi estabelece com Fatem faz que “Put Your Soul on Your Hand and Walk” fisgue o espectador pela empatia e simplicidade da sua história. Ao utilizar as palavras da protagonista para dar um significado totalmente novo à luz dos acontecimentos da violência que acomete os palestinos, a diretora oferece um olhar documental sobre a força da resiliência e esperança em torno de um mundo cada dia mais intolerante.
Isso é facilitado pela pessoa iluminada que é Fatem (a alegria em pessoa) que vai falando sobre seus desejos e sonhos em um país marcado pela destruição e pelos escombros e que traz dentro da essência do documentário, o retrato íntimo de uma jovem que mesmo nas dificuldades é capaz de olhar para o lado positivo das coisas.
É claro que a fatalidade que acometeu a Hassouna faz que o filme se torne ainda mais impactante. Serve para gente refletir que a vida é um sopro e que o terror provocado em torno da disputa territorial revele o quanto a violência rege indiscriminadamente essa disputa.
Alguns temas da conversa são bem fortes, principalmente na maneira que a protagonista lida com os elementos da violência na faixa de Gaza (“Isso é algo normal pra mim). Neste sentido, é difícil não conter a emoção perante o olhar que Farsi impõe: seu documentário mesmo filmado no formato online, não impede de nos deixar impotentes, por trazer o elemento da morte iminente presente na vida da protagonista.
As falhas de comunicação devido os cortes da internet, os contrastes dos cenários – a diretora está em vários locais luxuosos, enquanto a Hassouna está no meio do inferno, em ambientes rudimentares – e o discurso fragmentados entre as duas acentuam essa aproximação de cumplicidade ao mesmo tempo que abre espaço para o medo devido o genocídio praticado em Gaza. Só acho a metragem do documentário cansativa (são 1h50) e maior do que necessária, muito em razão de Sepideh meio que se repetir nas conversas com Fatem.
Só que no geral “Put Your Soul on Your Hand and Walk” é um documentário que demonstra ser vital para retratar o horror de viver neste cenário de disputa, inclusive, o título é de uma das falas de Fatem que relata os medos de andar nas ruas (“A cada segundo que passa na rua, põe a sua alma na mão e caminha”).
Uma de tantos várias outras pessoas que tiveram seus sorrisos, sonhos e desejos destruídos pelo conflito israelo-palestino de uma civilização cada dia mais intolerante.













