O drama Love Me Tender conjura, pelo título, a ideia de uma história romântica, talvez até leve. Mas o filme da diretora Anna Cazenave Cambet é tudo menos leve: pelo contrário, é praticamente um pesadelo sobre o inferno em que as relações humanas podem se transformar, contando com uma atuação devastadora da sempre interessante Vicky Krieps, aqui em mais um grande momento da carreira.

Ela interpreta Clémence, uma mulher que tem um filho de oito anos com o ex, mas a convivência entre eles é boa. Até o dia em que ela confessa, de maneira quase casual, ao ex-marido que vai sair do armário e assumir a homossexualidade. Isso muda o comportamento do homem, que passa então a disputar agressivamente a custódia do menino com ela. Ele passa a impedir Clémence de ver o garoto, faz alegações horríveis contra ela e a envolve numa guerra judicial, na qual a mulher nem sempre é ouvida. Enquanto isso, a protagonista começa a se envolver com mulheres, às vezes como forma de aplacar sua tristeza por viver longe do filho. O filme é baseado no livro semiautobiográfico da autora Constance Debré.

A narrativa então se divide em duas: em uma, a protagonista vive um pesadelo jurídico e começa a contar os meses longe do filho – às vezes, em voiceovers sensíveis que nunca parecem intrusivos. E em outra, ela explora a própria sexualidade e seus sentimentos. Love Me Tender nos permite fazer nossos próprios julgamentos a respeito da protagonista. Ela é uma mulher egoísta devido ao seu comportamento, e por isso merece ficar afastada do filho, ou é uma pessoa que não merece o sofrimento pelo qual passa? E a dor da criança, em meio a tudo isso? Em uma cena, o pequeno Viggo Ferreira-Redier brilha ao se revoltar como é a vítima em meio à briga dos pais.

E o filme pertence a Krieps, claro. A atuação dela é algo incrível de se ver: a forma como ela às vezes reprime as emoções, a maneira como se transforma ao flertar com suas conquistas, a expressão corporal que parece suportar um enorme peso sobre os ombros em alguns momentos… É um estudo de sutileza, de expressividade, e com muita força dramática. Há momentos em Love Me Tender em que ela praticamente despedaça o coração do espectador.

Filmado com tons naturalistas, o filme está sempre acompanhando a protagonista em seu suplício, sempre conduzida pela esperança de ver o filho. E o ex-marido se torna quase uma abstração, um fantasma que causa dor e só pontualmente aparece na história para infligir mais sofrimento.

Por mais que o filme acabe se estendendo um pouco além do necessário – tem mais de duas horas e algumas cenas no trecho final começam a parecer redundantes – Love Me Tender é um drama bastante humano e também feminista, no qual a dor envolvida num processo de divórcio é amplificada pelo retrato de uma mulher que ousa transgredir e ser ela mesma. Uma ousadia que já deveria ser mais aceita pela sociedade, mas infelizmente esse ainda não é caso.