Um dos filmes mais aguardados de Cannes deste ano era “Young Mothers”, novo trabalho dos irmãos Dardenne, figuras queridíssimas no festival e que já conquistaram duas Palmas de Ouro com “Rosetta” em 1999 e “A Criança” em 2005, sendo este último o meu favorito da filmografia deles.
Lançado no último dia do festival, a nova produção dos irmãos de origem belga, mas que residem a bastante tempo no cinema francês, se não chega a ser marcante como os outros lançados por eles em Cannes, pelo menos se revela o mais interessante em comparação aos últimos três e o melhor depois do ótimo “Dois Dias, Uma Noite” produzido em 2014.
O longa-metragem mostra um mosaico de cinco “jovens mães” (de onde provém o título original) que residem em uma casa de acolhimento que dá suporte emocional a elas. É partir deste cenário que “Young Mothers” apresenta os conflitos e dilemas destas meninas lidando com questões sociais, – com destaque para a temática do aborto sendo confrontado na França moralista e religiosa – familiares e amorosas.
“Young Mothers” absorve o cinema social realista dos irmãos Dardenne para destrinchar o seu conto moral sobre uma temática muito presente na sociedade contemporânea que é das adolescentes grávidas dentro de um processo caracterizado pela inexperiência emocional – afinal são meninas entre 14 e 16 anos – em ter que assumirem a responsabilidade de serem mães muito cedo e lidarem com emoções conflitantes já esperadas no início da puberdade.
É neste contexto que os cineastas trazem temáticas pertinentes sobre a violência sexual e psicológica que Ariane (Janaina Halloy Fokan) sofre da mãe alcoólatra e do padrasto abusivo, enquanto tenta dar o seu bebê para adoção; o sentimento de carência que Jessica (Bebette Verbeek) tem em relação ao seu passado, depois de ser abandonada pela mãe quando criança e que reflete na sua relação com a filha recém-nascida; e, por fim, na angústia de Perla (Lucie Laruelle) em ter que assimilar a irresponsabilidade do pai da sua criança e combater o racismo no seu dia a dia.
Para Jean-Pierre e Luc Dardenne filmar estes eventos na obra serve para mostrar que mesmo em uma França cada vez mais intolerante, ainda existe espaço para solidariedade e humanismo, estratégias fundamentais para sobrevivência no coletivo.
Chama a atenção a maneira que “Young Mothers” revela um cinema otimista dos irmãos, apresentando a prática dramatúrgica para discutir a maternidade no país, onde a esperança, perseverança e a maturidade de vencer as adversidades seja a missão imprescindível que estas garotas vão tentar atingir até o final do filme.
É também um dos trabalhos dos irmãos que mais possui diálogos do que o habitual na carreira deles, além de trazer um mosaico – e não histórias individuais como nas outras obras da sua filmografia – sobre a sororidade feminina a partir de um estudo da necessidade de uma educação sentimental em relação a gravidez na adolescência.
Conta com um elenco jovem muito bem em cena, sendo o destaque principal Lucie Laruelle em uma performance atrevida e determinada.
Mesmo irregular em certos momentos – ele meio que se dispersa, talvez, por ser o primeiro filme deles no formato mosaico – “Jeunes Mères” mostra esta realidade feminina de mães por acidente, por meio de um retrato rico de jovens que desejam e lutam para lidarem com suas emoções e assim, se tornaram mães adultas.
Talvez, essa história leve e humanista desenvolvida com apreço pelos Dardenne seja o motivo do Júri comandado por Juliette Binoche ter a premiado como melhor roteiro desta edição. Apesar de não estar na minha lista de favoritos do Festival, de certa forma não tem como negar o valor da sua narrativa iluminada sobre a esperança de vivermos em um mundo melhor e mais complacente.













