O cinema exige vocação. Mas também pede insistência, nervos de aço, adaptação constante. E, acima de tudo, pede aliança. A realização de Ticar Bodó, curta-metragem de terror psicológico desenvolvido por alunos do curso de bacharelado em Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), é exemplo vivo disso tudo. Pensado inicialmente como um trabalho de sala de aula, o filme se transformou em um pequeno marco para uma nova geração que, mesmo diante dos perrengues do fazer cinematográfico na região, conseguiu encontrar o próprio tom e identidade.
A ideia nasceu de uma atividade ainda no primeiro ano do curso, quando os alunos foram desafiados a criarem sinopses. Uma delas, sobre um homem às voltas com o luto e a culpa por uma tragédia do passado, ganhou corpo ao longo dos semestres, com inspirações em aulas de teoria cinematográfica e discussões em grupo. Jorge, o protagonista, vive nas margens do rio e sofre com o alcoolismo após a perda da irmã. A trama se desdobra em atmosferas sobrenaturais, como se os fantasmas interiores ganhassem voz e presença física.
DUAS GRATAS SURPRESAS
Luís Eduardo, diretor do filme, conta que o projeto foi crescendo aos poucos: “A gente pensava em mandar para algum edital, mas tudo mudou quando o professor Walter (Fernandes Jr) pediu os roteiros prontos em sala. Ele dividiu a turma em grupos, fez a gente analisar tecnicamente os roteiros e, por fim, nos deu a bomba: ‘é para gravar’. Sem edital, sem verba, e em menos de três semanas”. Entre risos, ele revela: “Foi aí que comecei a ficar calvo”.
Vieram então as maratonas de chamadas de vídeo, organização logística, levantamento de orçamento (menos de R$ 1 mil) e a busca por atores. Foi quando surgiu Abraão Leão, o primeiro a mandar vídeo de audição e escolhido unânime para interpretar Jorge. “Ele leu o roteiro, elogiou e topou participar mesmo sabendo que não receberia nada. Isso deu força para a gente continuar”, lembra o diretor.
PERRENGUES E BOAS MEMÓRIAS
As gravações aconteceram no Tarumã-Açu, Zona Oeste de Manaus, em um sítio emprestado por amigos da equipe. Os desafios foram muitos: a chuva forte e inesperada, a subida do rio que alterava a continuidade das cenas, o som ambiente com vizinhos e barcos, e a escassez do verdadeiro protagonista simbólico do filme: o peixe bodó. “A gente rodou Manaus atrás de um bodó vivo, mas estava em época de cheia. Meu pai atravessou a ponte até o Cacau Perera e nada. Até que descobrimos o ‘Rei do Bodó'”, conta Luís. O tal rei emprestou um bodó empalhado, que acabou sendo usado no set. O problema é que, após ser molhado por uma chuva, o peixe ficou danificado e gerou um imprevisto orçamentário: “O Rei do Bodó disse que aquele peixe tinha sido empalhado com o pai dele, que já morreu, e nos cobrou 500 reais pela peça”.
Evandro Fernandes, diretor de fotografia, relembra com bom humor os perrengues e a relação de irmandade que se criou na equipe. “A gente dormia lá no sítio, cozinhava, levava choques com tomadas improvisadas, molhava equipamento, dava susto nos colegas na mata. Mas tudo isso construiu um vínculo, uma confiança, e um amor pelo processo”.
A assistente de direção Maria Luiza, que também atuou na preparação de elenco e figurino, destaca como a história se conectou emocionalmente com a equipe. “A gente sentia que tinha uma missão com esse filme, algo maior que um trabalho de sala”. José Clemente, também assistente de direção e da direção de elenco, ressalta: “Foi a chance de simular uma produção com orçamento de verdade. A gente queria sentir como é fazer cinema pra valer”.
Como cereja do bolo, “Ticar o Bodó” ganhou uma faixa musical original composta pelo cunhado de Luís Eduardo, que se emocionou com a história. A música foi gravada em um home studio emprestado e virou parte essencial da identidade do filme, junto com as falas do personagem-bodó. O resultado é um filme que, para além de contar uma boa história, celebra o poder do coletivo e a potência de um cinema amazonense feito com criatividade, afeto e coragem.
MOMENTO DE CONSTRUÇÃO
Além da força do coletivo e das histórias que nasceram durante a produção de Ticar Bodó, o curta também simboliza o começo de uma nova era para o cinema no Amazonas. Gislaine Posetti, coordenadora do curso de bacharelado em Cinema e Audiovisual da UEA, destaca que ainda estamos no início dessa caminhada:
“O curso é algo muito recente, uma abertura para que pessoas do Amazonas possam acessar uma formação qualificada e profissionalizante no audiovisual. Ticar Bodó é uma demonstração clara do que essa turma pode fazer mesmo diante dos desafios, desde a falta de recursos até a necessidade de aprender na prática a produção cinematográfica.
É um momento de construção, de descoberta. Ainda há muito caminho a percorrer, mas já podemos ver que o potencial é enorme. Esse curta é a prova viva de que o cinema amazonense está se afirmando, criando suas histórias e sua identidade própria, feita por quem vive e sente essa região.”
Assim, Ticar Bodó não é só um filme, mas um símbolo da força e do sonho de toda uma geração que aposta no audiovisual para contar as suas histórias e construir o futuro do cinema local. O curso da UEA, ainda no começo, tem o papel de ser a base e o motor dessa transformação — um espaço onde talentos são descobertos, experimentam, erram e crescem.
E é a partir desses primeiros passos que o cinema amazonense começa a se afirmar, entre enchentes, matas, rios e desafios, sempre dizendo: “bodódia, bora filmar!”













