Em um mundo saturado de remakes, reboots e inúmeras releituras de contos clássicos (Cinderela, Branca de Neve, etc), chegou a vez de enxergarmos a história a partir do ponto de vista de outra personagem do universo da famosa “Gata Borralheira”. The Ugly Stepsister, estrelado por Lea Myren e escrito e dirigido por Emilie Blichfeldt, apresenta um terror com elementos de body horror centrado na personagem-título, conduzindo-nos por uma narrativa em que Elvira (Lea Myren) enfrenta diversas provações estéticas na esperança de conquistar o amor verdadeiro, o príncipe encantado Julian (Isac Calmroth). No entanto, ela encontrará uma verdadeira pedra no sapatinho de cristal: sua meia-irmã Agnes (Thea Sofie Loch Næss), dona de uma beleza invejável, que também deseja arrebatar o coração do galanteador príncipe.
No debut como diretora, Emilie Blichfeldt demonstra segurança ao subverter uma narrativa clássica, colocando no centro da história aquela que sempre foi relegada à caricatura: a meia-irmã “feia”. Com uma condução precisa, Blichfeldt nos transporta para o ponto de vista de Agnes — ou ao menos tenta. Em diversos planos, a jovem parece deslocada até mesmo dentro de sua própria trama, como se fosse coadjuvante em uma história que deveria ser sua. Essa sensação, aliás, parece intencional: estamos habituados a observar apenas a beldade fugitiva do toque da meia-noite. Agora, nos cabe encarar o que sempre ficou nas sombras do espelho.
Lea Myren está magnética como Elvira, a irmã menos favorecida nos padrões convencionais de beleza. A atuação dela traz carisma e complexidade a uma jovem romântica que, cansada de esperar pelo “felizes para sempre”, decide moldar o corpo e o destino com as próprias mãos. E quando falamos em “moldar”, o espectador deve se preparar para cenas que flertam com o incrível grotesco. Em uma determinada cena que envolve um parasita, é preciso ter estômago para acompanhar até o final. Tal como em A Substância, o body-horror é utilizado aqui para escancarar os extremos que muitas mulheres enfrentam sobre pressões fenotípicas da sociedade para se sentirem desejadas, aceitas e completas.
Apesar dos méritos visuais e conceituais, The Ugly Stepsister falha em aprofundar a protagonista: Elvira é humanizada, sim, mas o roteiro hesita em definir com clareza suas intenções. Há momentos em que não sabemos se devemos torcer por ela ou por Agnes, a bela meia-irmã — interpretada de maneira sólida (e por uma atriz idêntica à Lily James), embora menos marcante. A crítica social se dilui justamente por falta de um posicionamento narrativo firme. O filme parece querer dizer muito, mas entrega apenas parte da mensagem.
Ainda assim, é instigante acompanhar essa releitura da fábula, onde o príncipe encantado é vazio e descartável, e a “Cinderela” revela interesses puramente econômicos. Ao inverter os papéis e nuances tradicionais do conto, The Ugly Stepsister provoca, incomoda e deixa rastros — ainda que com lacunas.
Em resumo, trata-se de um primeiro esforço promissor de Blichfeldt, que talvez tropece no desenvolvimento do roteiro, mas acerta ao desafiar o espectador com uma estética ousada e uma perspectiva raramente explorada no imaginário dos contos de fadas.













