Alguns filmes, assim como as paixões arrebatadoras, são sobre primeiras impressões. Quais são as primeiras impressões deste “Dreams”? Um: que não deixa de ser previsível que Johanne (Ella Øverbye), adolescente burguesa e adepta dos discursos progressistas, se apaixone por sua professora negra (Selome Emnetu). É claro — o “outro” é sempre fetichizado por essa gente.

Dois: que a decisão do diretor Dag Johan Haugerud de nos situar tão firmemente ao lado da protagonista, com direito a uma narração incessante, foi um erro. Vi um colega aludindo a Éric Rohmer para se referir à verborragia dessa nossa adolescente aspirante a literata. Verdade que há um quê Rohmeriano no longa, mas eu diria que os discursos dos personagens de Rohmer são mais interessantes que a voz em off que aqui nos assola.

Problema grande, já que Johanne está pensando em publicar o manuscrito que escreveu sobre seu romance tórrido com a professora. Uma adolescente falastrona, privilegiada, metida a escritora; um diretor que nos força a adotar a perspectiva dessa menina, custe o que custar (o halo que envolve a professora quando Johanne a vê pela primeira vez, os tons quentes do apartamento da amada, a frieza asséptica que toma conta do lugar no seu encontro final); o grande dramalhão acerca da primeira paixão e da descoberta subsequente de que, bom, a vida continua depois disso: todos os elementos apontam para um martírio pela frente.

Se ao menos Haugerud afrouxasse as rédeas, pensamos; se permitisse maior distanciamento em relação à protagonista, se desse espaço para que o drama se desenrolasse sem interferências constantes da subjetividade da menina. Porque tudo o que temos para nos escorar até então é a trilha sonora jazzística: trompete, tambores, cordas e um bocado de reverb. Toda a sensualidade e intensidade que “Dreams” almeja está na trilha, não nas imagens.

Não que o gérmen de um filme interessante não esteja presente. Nessas horas, a gente se pega encarando a cara dos atores. A cara de Øverbye, nossa Johanne, é quadrada, achatatada, com uma sutil covinha no queixo, visível apenas quando ela move o rosto perpendicularmente. Os cabelos loiros despencam em ondas ao redor da face até formarem grandes argolas douradas nas pontas. Tem algo de comovente no quadradismo desse rosto salpicado de sardas infantis. E não é justamente a tensão entre esses dois elementos o mote que “Dreams” deseja tratar?

O problema é que um rosto interessante não basta para sustentar nossa atenção. Eis então que algo acontece: Haugerud parece ouvir nossas objeções e começa a, lentamente, afrouxar as rédeas. Entram em cena a mãe (Ane Dahl Torp) e a avó (Anne Marit Jacobsen) de Johanne, suas confidentes. As cenas entre as duas se desenrolam de forma sóbria, descomplicada, em embates geracionais que revelam décadas de questões mal resolvidas. É quando nos damos conta também de que o manuscrito de Johanne faz todos os adultos ao seu redor exporem suas hipocrisias.

É uma via interessante, mas não seria o bastante se “Dreams” não estendesse o mesmo tratamento a sua protagonista. Pois é exatamente o que acontece em seu terço final, quando chega a hora de Johanne descer da sua grande montanha miserabilista e descobrir que, no fim das contas, ela subiu ali com as próprias pernas.

Resumo da ópera: dois terços de uma protagonista insuportável, salpicados por cenas inteligentes de suas contrapartes adultas, e um terço final que muda a chave de tudo. Nem sempre, ao longo de suas duas horas, “Dreams” é uma experiência especialmente prazerosa. Mas o efeito de sua narrativa inegavelmente se estende para além do término da sessão.