PARA LER OUVINDO:
É impressionante como a memória nos prega uma peça nesse labirinto infinito e cheio de possibilidades que é a mente humana. A memória tem um papel fundamental em um contexto social, político e cultural. E também de como nós lidamos com ela.
Bom, não vou me aprofundar nesse assunto tão complexo. Esta breve introdução memorial nos leva ao ponto principal deste texto: falar sobre os 40 anos do lançamento de “Procura-se Susan Desesperadamente”, ou como é conhecido como o filme de estreia de Madonna, embora tenha feito uma participação em outra produção no ano anterior.
E porque eu me apego nessa armadilha da memória para falar do filme? Simples. Fui criança nos anos 1990 e o filme, dentre tantos outros, era um clássico que passava sempre na Sessão da Tarde (hoje em dia completamente defasada com filmes com teor religiosos, de superação e família) e, na minha lembrança de infância era um filme muito divertido e ousado embalado pelo hit “Into The Groove” da própria Madge (para os fãs mais íntimos).
Não que o filme de Susan Seidelman – que também dirigiu outro clássico da Sessão da Tarde: “Ela é o Diabo”, com Meryl Streep e Roseanne Barr – seja de um todo ruim; diria que ele é… curioso. É um longa que dialoga bastante com a juventude nova-iorquina da época, principalmente. Com toda aquela anarquia, os inferninhos, o estilo punk new wave e a performance do corpo como instrumento de defesa. Reparem que todos os personagens estão sempre em uma autodefesa para sobreviver nessa grande metrópole que era Nova York dos anos 1980 e que continua sendo após longos e ligeiros 40 anos.
Em uma época em que poucas pessoas tinham telefone em casa, especialmente pessoas com espírito livre como Susan (Madonna), não restava outra alternativa que mensagens via classificados. É nessa onda que ela e o seu ficante Jim (Robert Joy) se encontram de cidade em cidade. Já Roberta (Rosanna Arquette) é uma jovem rica dona de casa com uma vida tediosa ao lado do marido Gary Glass (Mark Blum) e se encanta com essa história e passa a seguir Susan até que um golpe do destino a faz perder a memória e assumir o lugar da outra. O que ela não esperava é que Susan está indiretamente envolvida no roubo dos brincos de Nefertiti que vale milhões e o bandidão Wayne Nolan (Will Patton) passa a seguir Susan/Roberta. Para piorar, a desmemoriada se apaixona pelo bonitão Dez (Aidan Quinn) amigo de Jim que pede para ele proteger a sua gatinha. Uma confusão danada. E o marido banana? Sai à procura de sua esposa juntamente com sua irmã, Leslie Glass (Laurie Metcalf, muitos anos antes de pensar em ser a mãe da Lady Bird) e se depara com a verdadeira Susan.
Eu sei caro leitor, lendo assim, parece que a história é mirabolante, mas é bem mais simples do que aparenta. Inclusive, a direção de Seidelman tem aquele ar de videoclipes para realmente atrair a atenção dos jovens. E deu resultado, o filme foi um sucesso absoluto principalmente por ter a estrela do momento em rumo ao seu incontestável estrelato. No ano anterior, 1984, Madonna sairia do nicho clubber e se transformaria em estrela mundial por conta do seu segundo álbum, “Like a Virgin”. E o resto é história, né amores?
Lógico que, com essa linguagem juvenil, as cores, o figurino, a trilha sonora, os enquadramentos e a direção de arte tinham que chamar a atenção por sua vibração e deu certo, pois é um dos maiores acertos do filme. Tudo milimetricamente pensando para atrair a multidão que vivia o auge dos primeiros anos da MTV EUA.
Uma curiosidade é que o filme tem a breve participação dos trigêmeos idênticos separados ao nascimento, criados por famílias e classes diferentes. Robert, David e Eddy se tornaram celebridade no EUA na época. O caso deles, um experimento social, é muito bizarro e vale a pesquisa.
O contraponto das protagonistas é interessante: Susan e Roberta são completamente opostas que se encontram em si mesmas quando trocam de vivências involuntariamente. Roberta inicialmente é doce e frágil e tem uma performance muito natural de Rosanna Arquette. A grande estrela do clã da família Arquette dos anos 1980, que ainda rendeu grandes nomes como David Arquette e Patricia Arquette, esta a mais consagrada dos seis irmãos atores. Por seu desempenho como Roberta/Susan, a atriz venceu o BAFTA de atriz coadjuvante e foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz comédia/musical.
E Madonna, gente?
A popstar interpreta ela mesma. É a Madonna fingindo ser outra pessoa sem conseguir muito bem. O figurino parece ser seu look original do dia a dia daquela época, copiados por todas as meninas. A rainha do pop nunca foi uma excelente atriz, nisso a gente concorda. Mas a sua presença é sempre enigmática e quando ela não está presente em cena, queremos mais dela.
Certa vez, li uma crítica na revista Rolling Stone BR (sim, fui colecionador) e lembro nitidamente de uma frase: “às vezes penso que Madonna nasceu nos palcos, outras vezes eu tenho certeza disso”. Não vou lembrar do nome do crítico que, na época, escriva sobre o DVD da turnê “Confessions Tour”, ou seja, têm anos isso. Mas quando penso em Madonna é exatamente isso. Ela não precisa ser A grande atriz, no contexto cinematográfico, pois simplesmente ela É. E isso é que faz de Madonna a estrela atemporal que é hoje em dia, passados quarenta anos. Ela imprimiu uma marca, um estilo e Susan faz parte dessa jornada da heroína que fez a si mesma.
A memória realmente me pegou desprevenido. O filme não é bom como a minha memória de infância imaginava. Mas é isso, né gente? Um clássico para passar o tempo e pesquisar sobre a moda da época.
















A minha percepção foi completamente diferente. Lembro que quando eu era mais novo, eu detestava o filme, achava chato, parado, mas depois de rever ano passado achei muito bom. A historia prendeu muito, coisa que nao acontecia qd eu era menor. Como um fã de Madonna, eu assisti a quase todos os filmes dela, mas esse nunca foi dos meus favoritos e eu nao entendia na epoca pq ele era talvez o mais elogiado. Depois de rever anos depois eu entendi rs. Com ctz ele nao é excelente, nem uma obra-prima, mas o considero acima da média.
O bom da subjetividade é justamente isso, né? Opiniões e pontos de vista. Contudo, não acho ele tão ruim não. É eficaz para a época e tá tudo bem.