Por trás da aparência plástica, da ironia coreografada e dos sustos estrategicamente posicionados, M3GAN 2.0 esconde uma inteligência pouco comum para um produto de horror voltado ao grande público. A sequência, novamente comandada por Gerard Johnstone, mostra que o diretor – conhecido pelo ótimo Housebound (2014) – tem plena consciência do que está em jogo: não apenas continuar a saga de uma boneca assassina, mas também refletir sobre os limites da tecnologia, da moral e da diversão em um mundo saturado por estímulos, medos e algoritmos.

A entrada de Johnstone no roteiro (dividido com Akela Cooper) é notável. Se no primeiro filme a mescla maluca entre horror e sátira já vinha com a assinatura bem nítida de Cooper e James Wan – os responsáveis por transformar Maligno em uma ode psicótica ao giallo digital – aqui o controle narrativo é mais equilibrado. A trama segue alucinada, recheada de absurdos, mas abraça a ambiguidade como um recurso narrativo e político. O discurso sobre inteligência artificial não se firma como denúncia nem apologia: é um campo de batalha onde cada ação da M3GAN exige intervenção humana, e cada decisão do algoritmo revela, no fundo, uma limitação aprendida com os próprios criadores.

Há, portanto, algo de encantador em assistir um blockbuster que entende os contornos do seu tempo, mas não os usa como simples isca. O filme não se leva a sério, mas também não ridiculariza sua premissa. Pelo contrário: encontra nela um terreno fértil para experimentar, tensionar gêneros e comentar, com certo cinismo, a nossa dependência cada vez maior da tecnologia como substituta afetiva, política, bélica.

A comparação com Chucky 3 é inevitável, mas reveladora. Enquanto o boneco possuído dos anos 1990 se perdia em uma trama truncada dentro de um quartel, M3GAN 2.0 brinca com os mesmos códigos narrativos de maneira muito mais fluida. A sequência aqui funciona como uma espécie de colagem pós-moderna de gêneros e tons: há terror, comédia, ficção científica, crítica social e até mesmo um debate tímido, mas presente, sobre parentalidade num mundo ultra-conectado. É o tipo de filme que se assume como mutante, e por isso mesmo, cativa.

Mais do que isso, é o tipo de terror que precisa existir. M3GAN 2.0, ao lado de filmes como Maligno, Noites Brutais e as produções de Christopher Landon, mostra a importância de se manter viva uma vertente do horror contemporâneo que não teme parecer bizarra, exagerada ou referencial. São filmes apaixonados, muitas vezes bagunçados, mas que abrem espaço para novas linguagens, alegorias e experiências sensoriais em um circuito acostumado com o previsível. São, como se diz, filmes que se divertem contando histórias – e isso, em tempos tão controlados por fórmulas, é uma revolução em si.

Com M3GAN 2.0, a produtora de James Wan, a Atomic Monster, reafirma sua vocação de laboratório pop para o horror inventivo. Ainda que não alcance o mesmo impacto cultural do primeiro filme, esta sequência é mais coesa em sua proposta de explorar o terror como alegoria do presente. Ao final, fica a impressão de que M3GAN é menos uma vilã do que uma síntese das contradições do nosso tempo: programada para proteger, mas sempre a um passo de exterminar; treinada para amar, mas eternamente refém do que lhe ensinaram. E o que ensinamos, afinal, senão nossas próprias falhas?