Uma família resolve se mudar para um lugar remoto, onde os vizinhos apresentam comportamentos estranhos e sons duvidosos são ouvidos nas proximidades… Você, com certeza, já viu essa premissa em algum filme de terror americano bem convencional. Em Cuckoo: O Medo Chama, não é diferente. Situado nos Alpes alemães, o longa-metragem acompanha a mudança de Gretchen (Hunter Schafer) e sua família para uma nova casa próxima a um hotel praticamente deserto. O motivo da mudança? O pai dela recebeu uma promoção para trabalhar na construção de um novo resort na região. Como de costume, a protagonista não está nada satisfeita com a mudança de ambiente e, aos poucos, vai descobrindo segredos obscuros a respeito desse novo habitat.

De imediato, é preciso elogiar a direção de arte de Dario Mendez Acosta, que realiza um excelente trabalho na concepção visual de Cuckoo: O Medo Chama. Com cores fortes que se destacam em cada personagem, é possível perceber a atmosfera única que o diretor consegue criar para cada figura e locação. Destaca-se, principalmente, o verde-musgo, coloração predominante em toda a paleta do filme.

De certa forma, sente-se que a natureza está invadindo os espaços domésticos ocupados por turistas e moradores e, posteriormente, é notório que esse cenário natural tem muito a dizer sobre as criaturas que rondam por ali. Ao mesmo tempo, nota-se a ausência de transeuntes na região, o que contribui para uma sensação de isolamento do local em relação ao mundo exterior — um microcosmo distante do macro. O filme transmite um suspense desértico e um constante sentimento de abandono daquela região montanhosa.

A direção de Tilman Singer também merece reconhecimento: o cineasta consegue transpor elementos de Cuckoo: O Medo Chama de forma gráfica e assustadora. A cena em que a protagonista está andando de bicicleta e, de repente, percebe uma sombra a seguindo, é perturbadora. No entanto, há momentos em que o terror perde a força. Em uma determinada sequência em que Gretchen se machuca na testa, por exemplo, o que se segue é uma cena tosca e inverossímil, destoando do restante da proposta estética.

Schafer, uma das estrelas de Euphoria, se destaca com sua atuação insegura e melancólica, dando vida a uma garota que se sente deslocada e emocionalmente abandonada pelo pai. Conforme a narrativa avança, a personagem vai ganhando coragem para enfrentar seus medos, assumindo o arquétipo da final girl. É uma pena que o roteiro e a direção não souberam explorar melhor o talento da atriz em cenas de ação mais elaboradas. No clímax — esperado confronto entre a protagonista e seus dois rivais — é decepcionante assistir a uma montagem esdrúxula, que lembra mais a cena final entre os irmãos Clegane em Game of Thrones, enquanto Cersei simplesmente caminha entre eles.

Por conseguinte, o suspense deixa a desejar em seu terceiro ato. Os embates são criados, mas todos parecem ser resolvidos ou ignorados de forma abrupta, o que esvazia o potencial dramático das cenas. A criatura sobrenatural acaba se tornando caricata com o tempo, e o som agudo de canário que ela emite deixa de ser amedrontador, parecendo apenas um papagaio repetindo o mesmo ruído insistentemente. O filme claramente tinha um conceito interessante e soube criar cenários visualmente ricos, mas se perde em sua própria premissa, deixando informações vagas e ambíguas ao longo da narrativa. Além disso, entrega um final sem emoção e inconsistente, que não sustenta a tensão construída até ali. Cuckoo: O Medo Chama tinha muito a dizer (e cantar), mas pouco a sustentar.