“O casamento é um acordo comercial”, nos diz nossa casamenteira Lucy (Dakota Johnson) logo no início da projeção. “Sempre foi assim.” É uma visão cínica e determinista, muito apropriada à competitividade extrema de nossos tempos neoliberais. Mas o que a gente se pergunta é, justamente, se “Amores Materialistas” compactua ou não com a fala da sua protagonista.

A resposta é não, mas o filme também corta para os dois lados. Ao mesmo tempo em que tenta nos convencer, ao longo de custosas duas horas, que Lucy precisa se desfazer de sua visão quadrada do amor, Celine Song escala Dakota Johnson para viver a moça em sua versão mais deslumbrante. É diferente, por exemplo, de quando Renée Zellweger interpreta a trintona-mulher-comum no primeiro “Bridget Jones”, alvo da cobiça dos gostosos Hugh Grant e Colin Firth.

Aqui, os gostosos Chris Evans e Pedro Pascal também disputam por nossa protagonista, mas Dakota Johnson não interpreta uma mulher comum — ou pelo menos, “Amores Materialistas” não a trata como se fosse. Da mesma forma, Chris Evans se esforça para nos convencer de que é um ator aspirante e pobretão, mas nunca nos esquecemos de que estamos diante de alguém sobrenaturalmente atraente — de um astro de cinema, portanto.

O resultado é que nossa experiência com o filme tem sempre um quê de distanciamento. O que até funcionaria, se o longa cedesse aos impulsos que tanto quer controlar e se assumisse de uma vez por todas como uma grande fantasia glamourosa. Nesse caso, estaríamos perto daquelas comédias leves dos anos 1930, projetadas para os olhos famintos dos que encaravam a Grande Depressão de frente. Em tempos de aridez neoliberal, até que faria sentido uma atualização do tipo.

Mas esse não é o projeto do filme. Antes, Song prefere sacrificar todo o ritmo que a trama vinha construindo por uma guinada dramática que não só torna o filme azedo, como soa até um pouquinho de mau gosto. Um episódio extremamente violento é sofrido por uma personagem periférica, mas seu drama é mera ferramenta engendrada pelo roteiro para servir à epifania final de Lucy.

E qual é a epifania? Imagine as velhas platitudes sobre o amor que uma premissa como a deste filme inspira e você estará bem servido. De tal modo que não deixa de causar certa estupefação: precisava disso tudo? Será que Song, desconhecendo as velhas histórias melodramáticas dos últimos dois séculos, tentou reinventar a roda?

A impressão que fica é mais amarga. Com “Amores Materialistas”, a diretora descamba para o pior tipo de melodrama: o melodrama elevado.