Neide Gondim começa o livro “A invenção da Amazônia” afirmando que “a Amazônia não foi descoberta, sequer foi construída”. A partir dessa constatação, a pesquisadora discorre como o nosso território é uma invenção dos europeus. Como discutir então o processo de colonização da Amazônia sobre um olhar insubmisso, ou melhor, da perspectiva daqueles que são nativos/ habitam as paragens amazônicas? Essa é parte das motivações de César Nogueira e Francis Madson para a criação do filme “A Colonização do Delírio”, presente na edição 2025 do Nordeste Lab.
O projeto teve origem a partir de inquietações de Madson, por volta de 2017. “Pensei em maneiras de discutir o processo de colonização da Amazônia a partir de Silvino Santos, pioneiro do cinema amazonense”, contou o artista. Em 2023, ele e César Nogueira se uniram para desenvolver a ideia. “Deveríamos estar juntos nessa proposta, como uma continuação das inquietações vindas do curta “A Hespanhola””, revelou o diretor e corroteirista.
“É um processo que cultivamos desde o final de 2023 com constância. Trazemos questões familiares, neuroses, delírios e a crise climática como elementos fundamentais à narrativa e sustentada pela figura de Pai, Filho e Filha (pater familias)”, comentou a dupla. A história acompanha uma família disfuncional de uma Manaus tomada pela fumaça das queimadas anuais na Amazônia. O pai é um professor universitário sexagenário, que não sabe lidar com questões contemporâneas, enquanto a filha é uma curadora de arte que declara seu amor à Amazônia, ao mesmo tempo em que discrimina seus funcionários e a capacidade dos trabalhadores do município. Fecha o trio, o filho mais novo, percussionista da Filarmônica, dependente de cocaína e em busca de levar vantagem em tudo.
A situação familiar se agrava devido a chegada inesperada de uma fumaça de cor âmbar que revela os desejos mais íntimos dos protagonistas. Isso faz com que eles corram atrás dos próprios devaneios, vivenciando-os intensamente. No entanto, quando o céu azul enfim volta, os delírios e comportamentos extremos se dissipam, e todos vivem como se nada tivesse acontecido. “Ninguém sofre consequência pelos seus atos. Esse jogo é jogado há 525 anos por gente como essa família”, complementaram César e Francis.
Para contar essa história, os dois utilizam como referências “Macunaíma”, filme de João Pedro de Andrade, “Parasita”, de Bong Joon-ho, além de filmes de Andrei Tarkovski e Alejandro Jodorowsky. “A Colonização do Delírio” ainda se baseia no teatro do absurdo de Beckett e Ionesco e nas festas populares como carnaval, boi-bumbá e manifestações religiosas. Por meio da narrativas e dos personagens, o filme tem como objetivo “refletir elementos fundamentais da colonização do século XVIII, sobretudo a função das famílias europeias (pater familias) ligadas às capitanias hereditárias centradas na figura paterna. Além disso, elementos culturais, políticos, sociais, religiosos e sociais são mantidos por essas famílias até os dias de hoje”, contou a dupla.
Esses condicionamentos indicam como há uma forte presença neocolonialista na região, com ênfase na cidade de Manaus, indicando ainda que esta atua como “uma ressignificação dos elementos da colonização do século XVII, mas, agora, reelaborado como modelo de poder e produção de subjetividades”. Para Madson e Nogueira, isso pode ser visto como “uma extensão da relação colonial quando entendemos que a destruição da floresta faz parte de uma compreensão, advinda desde o século XVIII, de subjugar a natureza aos interesses capitalistas dos seres humanos”, comentaram. Tais ideias estendem-se, inclusive, para a forma como a região é explorada comercialmente: “pretendemos revelar essas contradições através da fumaça, um elemento simbólico que representa essa exploração e, ao mesmo tempo, a carnavalização das relações”.
Neste aspecto, César Nogueira afirma que “A Colonização do Delírio” não é uma denúncia sobre a crise climática, mas sobre a normalização dela e o esquecimento perpétuo da sociedade brasileira. Enquanto fotógrafo, o corroterista e produtor executivo cobriu as primeiras incidências da crise climática em Manaus, que lhe servem hoje como documentos que representam os efeitos nocivos do processo de colonização contemporânea que afeta o país como um todo. “As imagens também indicam processos de mudança sem retorno imediato à humanidade. Infelizmente, elas comovem pouco. A cortina de fumaça chamada “crise climática” também justifica ações contra a soberania nacional. É muito fácil, lá na frente, o Norte Global justificar invasões sob a justificativa de que não temos condições de cuidar do nosso meio ambiente”.
Um dos objetivos da dupla com o projeto é desromantizar a Amazônia a partir do olhar de dentro, trazer narrativas que consigam evidenciar seus habitantes por meio de seus próprios olhares e vivências. “Eu sempre quis contar histórias fantásticas. Este roteiro dá vazão ao meu desejo, que vem desde a infância”, contou César Nogueira. Já para Madson, esse relato “visa desconstruir radicalmente quaisquer “fetichização” da Amazônia, mesmo aquelas que, na superfície, visam ao empoderamento. Mas são apenas mais uma fase da estetização da Amazônia pelo capital”, conforme revelou ao Cine Set.
Nessa esteira, os maiores desafios de “A Colonização do Delírio” são de ordem estética, narrativa e financeira. “Estética porque queremos encontrar um universo próprio para este roteiro. Narrativa porque é um desafio conciliar os desejos artísticos, os temas da história e os dramas dos personagens com a recepção do público. Financeira porque temos consciência de que é um projeto caro. Queremos fazer cenas grandiosas, com carnavais, apresentações de bumbá e fumaças dominando tudo”, revelou a dupla.
Para alcançar esses objetivos, a dupla tem trabalhado para depurar a narrativa para as rodadas de negócios que estão participando no Nordeste Lab, em Salvador (BA). “Estamos em busca de conexões e financiamentos para a produção do nosso roteiro neste evento”, disseram. A participação é fruto de uma premiação que o projeto recebeu na edição de 2024 do Matapi. “Foi o fim de um processo intenso de consultorias e trabalhos diários na história”, afirmaram,
“A Colonização do Delírio” está no segundo tratamento de roteiro em apresentação no Nordeste Lab. O próximo passo do projeto é a prestação de contas para o poder público, uma vez que este foi aprovado no edital Nº 01/2023 – CONEC – chamamento público para ações na área do audiovisual, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas. “Ao voltar da Bahia, vamos seguir desenvolvendo o roteiro, de preferência com novos apoios”, finalizou a dupla.













