Impossível não lembrar onde você estava nos domingos de 2 e 30 de outubro de 2022. O nervosismo em todo Brasil era palpável diante das eleições mais disputadas desde a redemocratização de 1989. O duelo entre dois dos políticos mais populares do país – o então presidente Jair Messias Bolsonaro e o opositor Luís Inácio Lula da Silva – marcava para seus apoiadores muito mais do que a decisão do que seriam os próximos quatro anos.

Para um lado, a democracia estava em jogo na busca de impedir a continuidade de uma gestão de extrema-direita autoritária, enquanto do outro, temia-se o comunismo e o retorno de políticos acusados de corrupção recentemente. Da roupa aos discursos, os dois opostos estavam muito bem delimitados em um cenário praticamente impossível de achar pontos convergentes.

Diretora de sucessos como “Mutum” e “Três Verões”, Sandra Kogut saiu às ruas para cobrir toda esta tensão brasileira na reta final das eleições de 2022. O resultado é “No Céu da Pátria Neste Instante”, documentário que mostra personagens nos dois lados do espectro político previsto para chegar aos cinemas no próximo dia 14 de agosto. Nesta entrevista ao Cine Set, a cineasta conta sobre os desafios para fazer a produção.

Cine Set – Na cobertura política, muito se cobra de uma isenção, de uma abordagem mais igualitária dos dois lados. Claro, você não está ali como um jornalista e sim documentarista, mas, de que modo isso te acompanhou no projeto? De não tornar as pessoas que votavam no candidato que você não apoiava em uma eleição tão polarizada em caricaturas?  

Sandra Kogut – O filme é um olhar, um ponto de vista, logo, neutralidade não existe. O meu jeito de fazer cinema não é ter uma tese e ligar a câmera para comprovar o que já sei. Quando realizo um documentário, entro cheia de perguntas a ponto de nem saber se vai ter um filme ali. São poucas certezas. Em “No Céu da Pátria Neste Instante”, ninguém sabia o que iria acontecer; apenas que seria um fato importante registrar independente do que ocorresse. Isso me deu vontade de fazer o longa.  

Tinha uma vontade genuína de tentar olhar e compreender as pessoas que estavam do outro lado e que, para mim, era difícil entender o que elas pensavam. Foi uma curiosidade que me moveu para realizar o documentário. Isso era uma tarefa quase impossível porque realizar um filme desta forma significava construir uma relação forte de confiança com os personagens. Acabou ajudando a forma transparente sobre como eu pensava para estes entrevistados. Falava desde o começo: “não estou aqui para te convencer de nada. Quero ouvir”.   

Daí, vem a decisão de não passar o filme inteiro em embates, debatendo tudo. Isso seria um abuso de poder meu como diretora. Queria enxergá-las como pessoas. Isso deveria ser um exercício de todos nós na vida neste momento político. Em um documentário, esta abordagem faz com que saia o estereótipo e as complexidades e humanidades ganhem espaço. 

Cine Set – O documentário estava previsto para ir até que ponto? Pergunto isso porque todos os acontecimentos após o segundo turno das eleições de 2022 são de uma imprevisibilidade total – a paralisação dos caminhoneiros, as manifestações nas estradas, os quartéis ocupados, a bomba em Brasília, o 8 de janeiro… Houve alguma mudança do que você tinha previsto inicialmente?  

Sandra Kogut – Este é o típico projeto que você precisa ficar repensando tudo o tempo todo porque ninguém sabe o que vai acontecer. No primeiro turno, por exemplo, havia a ilusão de que terminaria ali. Após o segundo turno, dois dias depois, eu já estava na frente do quartel. Era um negócio que não acabava. 

Decidi, então, que iríamos até a posse. Havia uma tensão no ar de que algo poderia dar errado, mas, foi o contrário; tudo muito tranquilo, tudo certo. Final feliz. O dia 8 de janeiro era o primeiro domingo que estava em casa sem maiores preocupações depois de tanto tempo de sair correndo para filmar algo. De repente, recebo o telefonema de uma personagem que diz: “você está vendo o que está acontecendo? Liga a televisão”. 

Para “No Céu da Pátria Neste Instante”, fizemos uma série de procedimentos incomuns para um documentário corriqueiro. Uma delas foi a criação de equipes locais, as quais foram se tornando parte do filme. Foi um longo processo de formação destes profissionais. Em Brasília, tinha um rapaz que integrava estes times regionais que sempre estava em contato conosco. No dia 8 de janeiro, ligamos e ele prontamente se deslocou fantasiado de verde e amarelo para a Praça dos Três Poderes. O resultado disso é que somos os únicos a ter imagens impressionantes de cinema daquele momento, afinal, a mídia só filmou de longe e havia os celulares dos invasores. 

Cine Set – Para além da equipe de Brasília, você também teve times no Pará e em outras regiões do Rio de Janeiro. Como foi para você dentro do papel de diretora não ter este controle total daquele material que era feito, dependendo de terceiros?  

Sandra Kogut – Eu inventei esse jeito porque era o único jeito de fazer o filme, mas foi difícil sim. Foi um exercício constante de administrar este controle natural de ser diretora e que tenho na minha vida.  

Houve várias circunstâncias em que a pessoa filmava e me mandava o take. Eu olhava, avalia, sugeria ajustes, correções. Tive mil soluções para estar o mais próximo possível. Agora, como o trabalho durou um ano, as equipes tiveram muito tempo para formar esta linguagem. Chegamos, inclusive, a fazer manual, indicando a linguagem que eu pretendia ter no documentário a partir da movimentação da câmera e outras questões técnicas. 

Foi tanto uma experiência maluca como interessante. 

Cine Set – Ao longo do filme, há muitos momentos tensos para os personagens que são retratados, seja no meio da rua e o temor de um tiro ou da arma, fora a briga que acontece em uma zona eleitoral. Como você pensou a preparação da equipe e sua mesmo para as filmagens? 

Sandra Kogut – Foi dificílimo. Nunca tinha vivido algo tão extremo de não poder ir a algum lugar e real perigo, mas, ainda assim, tentamos lidar com uma situação protegida dentro das possibilidades. O medo era um tema central do documentário. Esta, aliás, foi a primeira vez em que trabalhei um projeto em que todos ali inseridos, na frente e atrás das câmeras, estão sendo afetados diretamente pelos acontecimentos. Todo mundo era cidadão, ia votar, tinha um lado. No dia da eleição, por exemplo, planejamos para que todos pudessem ter tempo para dar seu voto. Era uma proximidade totalmente única. 

Teve todo tipo de situação, inclusive, uma personagem na zona oeste do Rio de Janeiro, fiscal eleitoral, estava em uma área de milícias. Ela disse que se sentiu segura por estar sendo filmada. Cada momento, cada personagem, cada situação pedia um tipo de pensamento sobre como fazer. 

Cine Set – Algo nítido dos dois lados de apoiadores era o medo do que poderia acontecer com uma possível vitória de Bolsonaro ou do Lula. E este medo acaba por levantar barreiras e até a negação do outro. Você consegue enxergar formas de superar isso? 

Sandra Kogut – Olhando para o filme e a forma como foi feito, acredito que será possível algum tipo de aproximação se focarmos no lado humano entre os opostos. É onde está o terreno comum que desapareceu. 

Ficava pensando ao gravá-la que elas não foram assim anteriormente. Logo, eu procurava entender as razões delas terem sido capturas por esta raiva e todo o processo de desinformação que isso envolve. Pedia para que eles mandassem todos os vídeos que recebiam e compartilhavam. Era muito impressionante a máquina de desinformação implacável.  

Cine Set – Você falou que teve táticas para se aproximar dos personagens bolsonaristas, mas, mesmo assim, enfrentou resistências. Chegou a temer que poderia perdê-los à medida que tensão das eleições crescia? 

Sandra Kogut – O tempo todo (risos). Na verdade, muita gente não quis e outras desistiram no meio. Não falavam mais comigo. Isso aconteceu. Por outro lado, ainda foi possível construir esta relação de sinceridade em que eu não fingia nada, sendo muito fiel ao que iria fazer de ouvir, mas, também falando. Por isso eu acho que o respeito é o caminho. 

Curioso que as pessoas assistem e comentam que vivem isso com o pai, o tio, a tia, o avô. Essa briga e separação está dentro da casa das pessoas, nas famílias. “No Céu da Pátria Neste Instante” está presente no dia a dia e não nos corredores do poder. No fim das contas, tenho recebido muita gente falando que considera o filme muito respeitoso. 

Cine Set – Maria Augusta Ramos, Petra Costa, Anna Muylaert e Lô Politi, e, agora, você. Este caos político do Brasil desde 2013 vem sendo acompanhado de forma muito atenta pelas cineastas mulheres. Como você observa esta visão e presença feminina para contar este momento tão delicado do país? 

Sandra Kogut – Já fizeram esta pergunta algumas vezes e realmente não sei como se explica isso. Acho muito legal e feliz de estar ao lado destas mulheres com todos estes filmes. Há mais vozes femininas no cinema do que quando comecei, fora que é algo tão forte e intenso tudo o que vivemos, que fica difícil não querer falar disso.  

Fazer cinema é existencial, é o meu lugar no mundo, de onde olho e processo as coisas. Acabei me sentindo compelida a falar sobre este momento, o que, talvez, também tenha sido sentido por todas elas. 

Cine Set – 2026 se avizinha com um cenário tão ou mais nebuloso como de quatro anos atrás, visto que, desta vez, temos Donald Trump. Pensa em uma continuação do documentário? 

Sandra Kogut – Eu quero sim fazer um filme nas próximas eleições. Não sei vou conseguir, mas, se der tudo certo, farei um diferente. “No Céu da Pátria Neste Instante” foi o trabalho mais difícil que já fiz pelo tamanho, a quantidade de pessoas, as incertezas. Sou um pouco supersticiosa para ficar falando antecipadamente, mas, prometo que assim que tiver tudo certo, vocês saberão.