Quando o maravilhoso Drácula de Bram Stoker de Francis Ford Coppola foi lançado no início da década de 1990, o diretor francês Luc Besson iniciava sua trajetória de sucesso pelo cinema com Nikita – Criada Para Matar, filme que abriu caminho para ele trabalhar na indústria cinematográfica americana, onde rodou os seus dois maiores sucessos e que lhe deram muito prestígio: O Profissional (1994) e O Quinto Elemento (1997). Trinta anos passados e com a carreira em baixa, o diretor tenta retornar aos holofotes do sucesso ao apresentar uma nova versão do vampiro a partir da reimaginação extravagante de Drácula – Uma História de Amor Eterno.
Nela, a história começa nos tempos das Cruzadas, quando o príncipe Vlad (Caleb Landry Jones que atuou com o diretor no interessante Dogman) é enviado pela igreja para lutar contra os muçulmanos. Durante o embate, sua amada Elisabeta (Zoe Bleu) é morta pelos inimigos e ele resolve renunciar a Deus, virando o temido Drácula. Quatro séculos depois, durante a Revolução Francesa em Paris, ele acredita que a jovem Mina (também interpretada por Zoe) é a reencarnação da finada e, para conquistá-la, precisa enfrentar o grupo liderado por um padre (Christoph Waltz), sujeito especializado em vampiros e que está em seu encalço já alguns anos.
VISUAL ARREBATADOR VERSUS FRAGILIDADE DRAMÁTICA
A abordagem de Besson sobre Drácula brilha mais pela ambição estética extravagante do que na condução dramática. A adaptação impressiona pelo apuro visual do diretor (característica bem notória em suas obras), pelas performances do bom elenco que tem em mãos com destaque para italiana Matilda De Angelis no papel de Maria e uma trilha sonora poderosa comanda por Danny Elfman, grande parceiro de Tim Burton e que consegue homenagear a original de Wojciech Kilar através de alguns acordes, mas sem perder a oportunidade de impor a própria visão para a relação trágica entre Drácula e Mina.
É inegável que o diretor evita fazer um mero copia e cola do filme de Coppola, oferecendo ao público uma nova experiência ao se focar mais no drama romântico de Drácula e na solidão emocional do que no terror sobrenatural que circunda a figura mítica do Conde. Drácula – Uma História de Amor Eterno dá realmente novas camadas à história – o prólogo que conta a história de Vlad e Elisabeta é bem maior ao apresentado no longa de 1992 –, mas se perde na tentativa de modernizar a narrativa, não conseguindo compreender as camadas mais profundas do drama amoroso, devido à falta de densidade emocional e de equilíbrio em trabalhar os símbolos clássicos do vampirismo que o roteiro se propõe a descontruir a partir da inovação dramática.
A ideia de trocar o poder de sedução de Drácula por uma fórmula de perfume mágica se revela até um ponto de vista revitalizante por parte de Besson para brincar com o magnetismo do personagem. Uma pena como tudo é desenvolvido de maneira preguiçosa pelo roteiro, sem que essa novidade narrativa agregue contexto a dramatização do conde.
Personagens vazios dentro da mitologia
Um dos grandes problemas nesta adaptação é o modo que ela trata a mitologia do vampiro e o fardo emocional que ele carrega sobre sua imortalidade. Enquanto Coppola sabia equilibrar melhor o espetáculo visual com o drama, alinhando a profundidade psicológica dos personagens com os elementos eróticos do cinema vampírico para criar um Drácula de pura contradição, entre o homem que perdeu o amor da vida (Elizabeth) com o lado monstro que deseja destruir tudo a sua volta devido a ânsia por sangue, Besson envereda por este foco humano que se revela uma mera sombra anêmica da versão de 1992.
Uma História de Amor Eterno ao fazer essa comparação de amor perdido esbarra numa execução dramatúrgica falha e muitas vezes pobre. A figura amaldiçoada do conde pouco instiga medo no espectador em decorrência da mitologia dos sanguessugas ser elaborada de um jeito apressado e nem gera a comoção necessária devido a falta de conexão emocional da sua jornada pessoal em lidar com o peso da imortalidade.
Até mesmo a vertente política que o longa ensaia – o cenário se passa no centenário da Revolução Francesa – é esvaziado no subtexto, que remove qualquer discussão sobre a tensão social ou os conflitos de classe da época, além da questão religiosa do padre vivido por Waltz – que exerce o alterego de Van Helsing, grande rival do vilão nos filmes – que ganha um certo reducionismo pelo roteiro, bem diferente do personagem de Hopkins que fazia uma interessante contraposição entre religião x ciência na adaptação de Coppola, já que em nenhum momento ele agrega questionamentos sobre fé e religião, se limitando a uma participação apenas satírica.
Drácula – Uma História de Amor Eterno, dentro dos seus padrões orçamentários, não deixa de ter um belo acabamento visual com cenários e fotografia que mostram o respeito do seu realizador pelo cinema gótico clássico, principalmente quando ele deixa a base romântica em segundo plano para explorar o teor mais sombrio como o ato final que ocorre no castelo na Transilvânia e que se aproxima das ações violentas (e com mais sangue) dos filmes de Besson.
É uma releitura de risco e que traz certa ousadia em explorar a simbologia vampírica na figura humana de Drácula. Infelizmente, as extravagâncias de Bresson não aderem a esse foco romantizado, diminuindo qualquer tentativa de provocar uma dramaturgia interessante e até mesmo em dialogar com a iconografia do cinema de vampiros.














