Quando os créditos de encerramento da nova versão de A Guerra dos Mundos subiam, era fácil compreender os motivos que levaram o filme a ficar na geladeira por cinco anos – ele foi rodado durante a pandemia de COVID-19 – e ter a existência revelada (do nada) durante a San Diego Comic Con deste ano, uma semana antes do lançamento no streaming da Amazon Prime.

A terceira adaptação do romance de H.G Wells – a primeira na década de 1950 pelas mãos de Bryan Haskin e a segunda por Steven Spielberg nos anos 2000 – é o melhor exemplo de como constranger o cinema de ficção científica ou em estragar a carga psicológica da narrativa de invasão alienígena do romance original.

Turbinada para se adequar a realidade tecnológica atual, o longa mostra William Radford (Ice Cube e sua tradicional interpretação ranzinza), técnico do Departamento de Segurança dos EUA que descobre sobre uma repentina invasão alienígena que assola o país e o mundo todo. Por meio da internet, ele observa a catástrofe ocorrendo ao mesmo tempo em que procura administrar a relação turbulenta com os filhos após a morte da esposa..

Mau uso do formato screen life 

Dirigido, talvez, por uma inteligência artificial chamada Rich Lee, A Guerra dos Mundos de 2025 se utiliza muito mal do recurso de screen life – formato visual narrativo em que a história ocorre inteiramente pelas telas de dispositivos digitais – para construir a narrativa sobre vigilância governamental e falta de privacidade.

Este formato aplicado por outros filmes como Buscando, Desaparecida e Cuidado com Quem Você Chama de maneira inventiva para envolver o público numa imersão maior ao suspense, aqui nas mãos da direção IA de Lee fracassa em provocar qualquer tipo de tensão ou medo.

O filme mistura tantas coisas em 1h30 de duração que praticamente é difícil identificar qualquer traço da mensagem de paranoia de Wells, fazendo as questões sobre invasão de privacidade se perderem por completo. O próprio plot da ameaça alienígena daria um bom subtexto para discutir o pânico gerado pela vigilância tecnológica no mundo contemporâneo e de que forma ela instiga comportamentos persecutórios na população, situações que ajudariam a modernizar as reflexões que o livro do autor analisou sobre a sociedade da época.

Só que Lee está pouco preocupado em transmitir um senso de realidade para aquilo que assistimos em tela e sim fazer que a crítica social se transforme em uma grande propaganda digital sobre o heroísmo americano e até mesmo da própria distribuidora, afinal o sistema da Amazon, o Prime Air é uma das principais soluções de salvação da humanidade no ato final contra os alienígenas. 

Insalubridade cinematográfica

Se não bastasse estes elementos problemáticos, A Guerra dos Mundos também consegue ser insalubre em criar qualquer vínculo emocional com o público já que os arcos dramático são tão rasos nos discursos semelhantes àquelas conversas de botequim. Em um deles, William praticamente deixa os afazeres profissionais (que inclui responder ao Presidente e Ministro de Defesa) e pessoais, no caso os filhos, para curtir uma deprê observando o perfil da falecida esposa no Facebook enquanto ele é deletado da rede. Se a intenção dos envolvidos era provocar uma comoção dramática, o tiro saiu pela culatra já que o resultado causa riso pela encenação patética.

A Guerra dos Mundos falha praticamente em quase tudo. É nulo em provocar medo, em instigar o suspense por meio do conteúdo social crítico e de cativar o público com um filme de destruição em massa. Até visualmente, carece de qualidade, já que o design dos alienígenas é um quadro pixelado alimentado por gráficos de um game de 8 bits.

Não deixa de ser curioso porque em plena década de 30, o grande Orson Welles causou pânico e desespero na sociedade ao simular uma invasão marciana nos Estados Unidos, por meio de uma transmissão de rádio em formato de noticiário, utilizando a história de Wells como base. Quase 90 anos depois, a nova versão com dinheiro e tecnologia a seu favor, segue o caminho contrário e produz uma releitura não apenas constrangedora como anêmica na sua invasão alienígena.