Em um certo momento no início de, “Os Roses: Até que a Morte os Separe”, Theo, personagem de Benedict Cumberbatch, comenta que a arquitetura é algo caótico e divertido e, por isso, ele a aprecia tanto. A descrição também poderia se estender ao relacionamento com a esposa, Ivy – uma hilária e irritante Olivia Colman -, o qual, mesmo nos piores momentos, mostra a desordem e o tom jocoso como os dois lidam com a vida enquanto cônjuges e parceiros, acima de tudo.

De um lado, temos um arquiteto extremamente metódico e organizado, e, do outro, uma chefe de cozinha leve e criativa. Perfeitos e super compatíveis, no primeiro momento, as coisas começam a sair dos trilhos quando a carreira dele despenca e a dela, em simultâneo, alavanca. A partir dessa inversão de papéis, o roteiro adaptado por Tony McNamara (Pobres Criaturas) nos conduz a autodestruição desse casal que não deixa de carregar o charme e a elegância que as comédias britânicas possuem.

“Os Roses” bebem, dessa forma, em uma inversão de papéis para discutir o lar como um campo de batalha cuja as feridas proporcionadas pelo ciúme, a inveja, os ressentimentos e as sabotagens usuais domésticas tornam aquilo que era belo e apaixonante, a princípio, um colapso autodestrutivo. Ao mesmo tempo, em que discute como o empoderamento feminino, sua colocação e sucesso no mercado de trabalho ainda geram incômodos dentro da dinâmica familiar conservadora que preza que o homem é o maior provedor do lar.  Dessa forma, questões como masculinidade, capitalismo tardio, poder e sucesso profissional são pontos que atravessam a narrativa e, ainda que não estejam no texto central, apresentam-se por todo o contexto da trama. 

A direção de Jay Roach (Entrando numa fria) consegue encaixar bem esses elementos de maneira orgânica e fluida, que te leva a gargalhadas em simultaneidade com questionamentos por compreender como o patriarcalismo e os papeis instaurados de gênero conseguem se infiltrar e destruir relacionamentos estabilizados. O diretor impõe ritmo e leveza na trama e no duelo elegante que Theo e Ivy traçam, nos levando a crer na ingenuidade da mulher que realizava uma refeição completa de restaurantes franceses para a sua pequena família e por um acidente o país conhece a sua genialidade, e, na determinação do homem que tem sua reputação profissional manchada voltar-se para que os filhos tornem-se atletas de alto nível, algo que nunca poderá ser tirado deles como lhe foi tirado o exercício da arquitetura.

O diretor combina humor ácido, sarcasmo e cinismo funcionais no ambiente doméstico para provocar gargalhadas e leveza em meio aos constrangimentos que eles se impõem. O que contribui para que isto aconteça é a química explosiva entre os protagonistas e como seus intérpretes estão hilários, Colman com seu texto preciso, expressões que transmitem sarcasmo e ingenuidade e Cumberbatch revelando toda sua veia cômica; a parceria deles encontra o tom certo e complementar. Os diálogos ácidos são complementados ainda por coadjuvantes um tanto ambíguos que ajudam a aumentar o distanciamento emocional que há no casal.

Apesar de toda essa caminhada, sinto que a última parte de “Os Roses” perde um tanto a força. Isso ocorre, em parte, devido ao esfriamento que Ivy traça para todos os seus familiares. Como se eles tivessem culpa das coisas que ela perdeu por ter se dedicado ao trabalho invés do lar. O figurino da personagem mantem-se embora os cortes sejam mais refinados e as cores mais elegantes em suas combinações, mas a personagem soa como se tivesse ressentimento de escolhas que ela mesmo fez para si e jorrar isso nos seus familiares soa como egoísta e autocentrado. De forma semelhante, a epifania de Theo me soa solta em meio a tantas evidencias de que sua própria vida havia perdido o prumo.

“Os Roses”, ainda assim, continua sendo um filme engraçado, fácil de se encantar e de refletir nos caminhos que a vida leva seus personagens. O roteiro de McNamara brinca com metáforas que se tornam fluidas com a direção de Jay Roach, mas nada nos prepara para a forma como a obra termina. Sem dúvida, uma maneira de ser felizes juntos, como bem expressa a música do The Turtles presente durante toda a projeção.