Muito mais do que os 36 anos entre os lançamentos dos dois filmes, transformações profundas na sociedade separam “A Guerra dos Roses” com o recente “Os Roses: Até Que A Morte os Separe”. Se a reunião entre Kathleen Turner e Michael Douglas sob o comando de Danny DeVito brincava com ares quase de terror sobre o divórcio, desta vez, a dobradinha Olivia Colman e Benedict Cumberbatch ao lado do diretor Jay Roach joga com as mudanças nas relações entre homens e mulheres nas relações conjugais e de trabalho.

Nesta nova versão, acompanhamos a vida perfeita do casal Ivy (Olivia Colman) e Theo (Benedict Cumberbatch). Tudo parece extraordinário: Ivy é uma bem-sucedida chef de cozinha com seu próprio restaurante, Theo é um arquiteto renomado; o casamento dos dois é repleto de amor e carinho e seus dois filhos são maravilhosos. Um contratempo, porém, acaba desembocando num conjunto de ressentimentos e competição que acaba com essa fachada de família de margarina e vida ideal. Enquanto a carreira de Ivy decola, a de Theo despenca quando ele perde o emprego. É assim que a tempestade perfeita se forma e uma bomba cheia de mágoas escondidas, implicâncias em público e disputas ferozes se prepara para explodir. 

O Cine Set participou de uma coletiva de imprensa com o trio de “Os Roses” voltada para imprensa do mundo de votantes do Globo de Ouro. O Caio Pimenta pode realizar para cada um deles sobre detalhes da produção e da concepção da comédia.

Cine Set – Olivia, em Os Roses, você volta a trabalhar com um roteiro de Tony McNamara após o enorme sucesso de A Favorita. Mais uma vez, podemos perceber aquele humor afiado e sarcástico que você entrega tão bem. O que você mais aprecia na escrita dele?

Olivia Colman – Acho que temos um senso de humor parecido, eu, Tony, Ben e nossos parceiros produtores. Tony é tão inteligente. E com um toque leve, ele consegue entregar algo que outras pessoas poderiam ter medo de fazer. Ele pode escrever algo ousado, cáustico, e consegue simplesmente jogar aquilo ali e depois dar um pequeno sorriso. E você quase não sabe: isso acabou de acontecer? Ele realmente escreveu isso? [suspiro]. Tony é único em um milhão. E, sabe, ele nos faz parecer melhores, o que é sempre bom. É uma habilidade adorável.

Cine Set – Benedict, em uma entrevista, o diretor Jay Roach mencionou que havia uma espécie de sexto sentido entre você e a Olivia quando se trata de timing cômico. Nesse sentido, quanto a sua longa amizade contribui para que uma cena funcione da melhor forma?

Benedict Cumberbatch – Muito, porque o primeiro ingrediente para uma amizade ao longo do tempo é esse conhecimento um do outro, e isso gera confiança. Então, esse é um enorme tipo de obstáculo que já não existe desde o início, o que é brilhante. Você simplesmente vai mais longe mais rápido. Há uma linguagem abreviada. E, então, no dia, estar tão impressionado pela intuição da Olivia, pela intuição emocional dela — que você já conhece, mas é que tudo nela, o jeito como trabalha, é tão imediato. E tão sutil e engraçado. E ela sabe: os níveis dela são extraordinários. E isso, sim, eleva o seu jogo. Então, sim, existe essa linguagem abreviada. Há uma imediaticidade através da familiaridade. Mas também, sabe, ela ainda conseguiu me surpreender.

Durante a coletiva, Olivia revelou que era antigo o desejo de trabalhar com Benedict, amigo de longa data, e a oportunidade aconteceu surgiu quando produtores como David Greenbaum (na época, da Fox Searchlight) e o marido de Olivia, Ed Sinclair, ajudaram a viabilizar a reimaginação do longa de 1989. Para o Doutor Fantástico da Marvel, havia o receio de que a expectativa fosse maior do que a experiência em si, mas o trabalho acabou superando o que imaginavam: “Se não fosse divertido, o problema seria comigo”, brincou.

Falando sobre referências do humor, Benedict citou nomes clássicos e contemporâneos como Peter Sellers, Kate McKinnon, Robin Williams, Leslie Nielsen e Charlie Chaplin, destacando O Grande Ditador como exemplo de genialidade ao unir humor e crítica política. Já Olivia destacou sua admiração por Andy Samberg, Jamie Demetriou e Lucille Ball, além de citar que o riso é essencial em sua família e que os momentos mais especiais em casa são quando todos se divertem juntos.

Sobre as gravações de “Os Roses”, Benedict revelou que, em alguns momentos de maior crueldade no roteiro, precisou checar com Olivia fora da cena se estava tudo bem, porque sentia que as falas eram realmente pesadas. A vencedora do Oscar por “A Favorita” considerou isso ‘doce’ e afirmou que a confiança mútua foi fundamental para conseguirem se entregar às brigas sem perder a conexão fora das câmeras.

Por fim, em relação às comparações com o filme de 1989, Benedict explicou que Ivy e Theo são personagens distintos dos de Kathleen Turner e Michael Douglas: não partem de arquétipos iguais, e aqui há mais investimento em entender por que a relação desmorona, em vez de apenas explorar o espetáculo do desastre. Ele disse que seria injusto tentar copiar performances tão icônicas, e que o filme atual propõe “outra espécie da mesma família” — ou, como brincaram, “raças diferentes de cachorro”.

Cine Set – Qual característica da versão de 1989 você mais quis preservar? E o que você acha que a nova versão muda mais? E por que escolheu essa nova direção?

Jay Roach – A coisa que eu amava no primeiro filme era o quanto ele se comprometia em fazer você reconhecer que, uma vez que seguimos por um certo caminho, podemos realmente nos perder. Sabe, quando você está brigando com alguém significativo e você realmente, sabe, não consegue se controlar, fica muito bravo, seja o que for, depois você pode pensar: “Uau, isso nem parecia eu. Eu totalmente me perdi de mim mesmo”.

Essa capacidade de retratar isso de uma forma crível, que parecia real e perigosa, eu achei que era o que queríamos pegar a tocha e carregar para este aqui. Mas o roteiro do Tony foi em outra direção, o que eu acho que é a razão de chamarmos de uma reimaginação mais do que um remake completo, porque ele queria que eles continuassem tentando durante toda a história, em vez de apenas ir escalando, escalando, escalando o quanto aquilo era troca de farpas e, sabe, orientado pela vingança.

E nós fazemos, na nossa versão, com que o público continue torcendo para que eles consigam resolver. É quase como uma comédia de recasamento. Aquele gênero antigo de filmes ao estilo de Preston Sturges. Mas eles realmente se perdem tanto que não fica claro se vão conseguir recuperar. Então, o filme original era: “Meu Deus, até onde eles vão levar isso?”. E eu acho que este é: “Até onde eles podem ir, mas será que conseguem puxar de volta e, de alguma forma, continuar juntos?”. E acho que essa é uma versão diferente que quisemos tentar realizar.

Fã da primeira versão por considerá-la ousada, Jay Roach afirmou que o roteiro de Tony McNamara transformou a premissa original em uma reimaginação com mais camadas emocionais. Ao contrário do original, os dois protagonistas são retratados como profissionais ambiciosos, refletindo dilemas atuais de casais que equilibram carreira e vida conjugal. Segundo Roach, a narrativa funciona como uma espécie de conto de advertência: divertida ao expor a queda de braço entre marido e esposa, mas também provocativa, levando o público a refletir se não está “tomando o outro por garantido”.

O diretor de sucessos como “Entrando Numa Fria” e da série “Austin Powers” disse que chegou a “Os Roses” com Benedict e Olivia já envolvidos no projeto. Roach ainda elogiou a capacidade dos dois de transitar entre tons: Colman, que ele chamou de “gênia cômica” com vasta experiência também no drama (Fleabag, Flowers), e Cumberbatch, que surpreende ao inserir humor em papéis marcados por disfunção (Patrick Melrose). A química entre eles foi descrita como imediata, “sem nem um segundo de dúvida”, funcionando como motor narrativo do filme.

Autor

  • Editor-chefe do Cine Set. Exerce o cargo de diretor de programas na TV Ufam. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas com curso de pós-graduação na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

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