A barra de cores, o chiado das imagens, o zumbido constante da fita, tudo contribui para um sentido de franca desorientação no início de “Pálido Ponto Vermelho”. Os momentos seguintes, que parecem ter saído de um VHS de algum documentário criacionista, mantém a confusão rolando (o porquê de, na realidade do curta, o documentário ter sido exibido pela TV Cultura é mais um mistério).

O segmento se encerra abruptamente. Uma nova gravação tem início: um programa de TV curiosamente intitulado “Jornal Liberal”. A reportagem nos diz de uma estranha estrutura surgida da noite para o dia no campus da Universidade Federal do Pará (UFPA), algo como um dedo enferrujado apontando para o céu.

As breves vinhetas cômicas sobrepostas na fita, como o trecho de uma novela global ou a interrupção de um plantão jornalístico, deixam claro estarmos diante da típica irreverência do cinema universitário. Certamente, nem a TV Cultura nem a Globo foram consultadas sobre a cessão de suas imagens, mas isso faz parte do pacote, da rebeldia.

Até aqui, saltando de gravação em gravação, nada mais temos que a reconstituição habilidosa da forma audiovisual dos tempos idos. Mas a abordagem “fita amaldiçoada”, aliada aos preceitos do horror cósmico em pleno solo paraense, mantém a gente intrigado. A ameaça apocalíptica paira no ar. Resta saber se o filme cumprirá satisfatoriamente os desígnios da maldição lançada sobre a população de Belém.

O problema é que, apesar da imaginação de sua premissa, o curta não consegue se desfazer das próprias amarras formais: o estilo VHS é a sua grande sina. Desde “A Bruxa de Blair”, ninguém mais foi capaz de extrair do próprio granulado da imagem a fonte do horror sobrenatural — e lá se vão quase trinta anos. De lá para cá, o found footage se limitou a regurgitar cópias baratas da mesma estratégia, que, aliás, John Carpenter já havia utilizado, de forma bastante eficaz, ainda nos anos 1980, em certas cenas de seu “O Príncipe das Sombras”.

Daí que “Pálido Ponto Vermelho” não tem muito a nos oferecer além de sua premissa, e ela estaria melhor servida por uma abordagem mais direta, menos espertinha. Até porque, por melhor que seja a sobreposição de grão que você acrescenta à sua imagem, se suas cartelas jornalísticas apresentam erros ortográficos recorrentes (“perca de cabelo”, “cidadãos entre em contato” etc), toda a ilusão vai meio que por água abaixo.