Vez por outra, o cinema de ação americano produz alguns filmes divertidos dentro de histórias amalucadas. A ideia de alimentá-los com uma dualidade prazerosa, que transforma a violência e a comédia em espetáculo, ajuda a dar forma aos exageros para entreter o público. Adrenalina, Anônimo, Trem-Bala e Beekeeper – Rede de Vingança são alguns exemplares mais recentes que partem de conceitos estapafúrdios (originais ou não) para impressionar o espectador por meio de uma narrativa ágil, violência gráfica e um senso de humor inusitado. Em 2025, a bola da vez é Novocaine: À Prova de Dor, filme dirigido pela dupla Dan Berk e Robert Olsen.
Ambientada em San Diego, a trama foca em Nathan Caine (Jack Quaid, o Hughie da série The Boys), um gerente assistente reservado de um banco que possui uma condição especial: uma anomalia genética chamada Insensibilidade Congênita à Dor com Anidrose (CIPA), que o impede de sentir dores. As coisas mudam quando ele se apaixona por Sherry (Amber Midthunder, que se destacou como heroína em O Predador: A Caçada), uma colega de trabalho que, após ser sequestrada durante um assalto, faz com que Nathan saia de sua zona de conforto para salvá-la.
Um filme autoconsciente de sua narrativa despretensiosa
O maior mérito de Novocaine: à Prova de Dor é a autoconsciência dos diretores e do roteiro de Lars Jacobson, que não se levam a sério em nenhum momento. É um filme despretensioso, que vai enfileirando uma piada atrás da outra, apoiado na ação de impacto visceral, sem se preocupar em expor o protagonista a situações mórbidas, instigando o espectador a virar o rosto de agonia diante das cenas incomodas visualmente.
O resultado é um projeto que surpreende pelo bom ritmo e pela diversão descompromissada. É interessante observar que o início de Novocaine funciona na construção do drama do personagem a partir da apresentação de sua condição especial no dia a dia, cheia de regras, situação que acaba por refletir em sua vida privada, marcada pela solidão e pelo isolamento social. A entrada de Sherry como interesse amoroso, também nesta parte inicial, reforça o contexto dramático e cômico, criando uma rápida identificação com o casal, graças aos bons diálogos entre os dois.
Existe um certo frescor nesta autoconsciência divertida do filme, ao retratar Nathan como um cara comum que possui uma condição especial, usada em prol da fisicalidade, do gore e da aflição, para facilitar os momentos de ação e comédia.
Ação que diverte, mas que engessa a narrativa
Curiosamente, o longa vai perdendo a dinâmica à medida que o filme de ação assume o protagonismo e vai se afunilando. Embora as cenas de ação alinhadas à violência gráfica produzam um impacto visual eficiente nas piadas e nas situações absurdas que Nathan enfrenta – como a sequência na casa do tatuador e o momento de tortura que o protagonista sofre de um dos vilões, que dimensionam divertidamente a condição de um homem incapaz de sentir dor frente à sanguinolência imposta – a lógica de um jogo básico filmado em “fases” tira grande parte da essência espirituosa do longa.
O romance de Nathan e Sherry fica limitado, e todo o drama do herói é esquecido para focar na ação caótica. Na verdade, a sensação é que as situações se tornam redundantes com sua repetição, culminando em um ato final maior do que o necessário.
Ainda que Novocaine flerte com boa desenvoltura com as animações de Looney Tunes (a casa cheia de armadilhas soa como uma disputa entre Coiote e Pernalonga) e as coreografias de combate sigam o formato da franquia John Wick, os diretores Dan Berk e Robert Olsen não impedem o trabalho de se tornar anestesiado pela dependência emocionalmente fílmica da ação, onde a fórmula e sua repetição se tornam excessivas.
Jack Quaid segue a vibe de Hughie, de The Boys, o sujeito comum boa praça que se vê diante de uma situação complicada. O ator consegue dar humanidade e graça a Nathan. Já Amber Midthunder tem uma ótima química com ele, e por isso é uma pena que sua personagem fique de escanteio na segunda metade do filme.
Por fim, Novocaine: à Prova de Dor não foge de ser uma diversão pura e simples. Em nenhum momento busca ser pretensioso, guardando como trunfo a leveza de ser um passatempo descontraído para massagear o cérebro sem grande exigência.














