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Logo no início de Bicicleta Amarela, novo curta-metragem de Zeudi Souza, um ponto já salta aos olhos: a estética em preto e branco que reluz de maneira formosa na fotografia de Robert Coelho e na direção de arte de Francisco Ricardo para apresentar o cotidiano familiar do protagonista vivido por Francisco Mendes.

Na história, ele é um pai seringueiro que possui uma doença crônica (supostamente tuberculose) e que mora com os dois filhos (Wellington Guedes e Vinícius Freire) na Amazônia, durante o período da Segunda Guerra Mundial. Para evitar que eles tenham a mesma vida sofrida, ele resolve fazer uma viagem com a sua bicicleta amarela – daí o título da obra – para deixar os garotos com a mãe (Jôce Mendes Freitas).

Nestes primeiros minutos, quando foca no drama familiar para contrapor a realidade social – Zeudi utiliza o rádio de forma inteligente como recurso narrativo para informar a situação da guerra juntamente com a migração que veio para região para extrair a borracha dos seringais -, Bicicleta Amarela cria um elo envolvente com o público por trazer nas entrelinhas dessa relação paternal dura, a existência de uma proteção que o personagem de Mendes tem pelos filhos. Interessante ainda a maneira com que o curta equilibra essa educação sentimental paterna com a identidade amazônica por meio da miscigenação cultural, trazendo o fator histórico para ponto de discussão dentro da narrativa.

Existe também uma naturalidade nas imagens e na própria história nesta etapa inicial, que apoiado pela fotografia P&b e pela representação efetiva da época, ajudam a dimensionar o estado emocional, tanto das crianças – que se divertem brincando no rio perto da casa – quanto do pai que precisa lidar com as tensões sociais do recrutamento para guerra e com a frustração pessoal de não ter alcançado a riqueza que imaginava quando migrou para Amazônia. 

Nessa construção visual, temos uma cena emblemática: quando o pai conserta a bicicleta, a fotografia acromática sai de cena para adentrar a colorida, ajudando a reforçar a cor do objeto título e que servirá de base para jornada emocional que o trabalho se proporá na segunda metade. Essa situação lembra um pouco o recurso de “aumento de tela” que Xavier Dolan utilizou em Mommy a expandido para proporção de tela quadrada 1:1 para a tela panorâmica 1.78:1, o que aumenta a intensidade emocional e a sensação de liberdade do protagonista. 

A mudança de cor aqui por parte de Zeudi simboliza a libertação do pai ao lado dos filhos da sua condição restritiva (de um meio marcado pelo medo da guerra e da imposição militar) para abertura para um mundo mais amplo, refletindo o aumento da afetividade emocional e a velocidade dos eventos quando o trio inicia a sua jornada bike movie

Mas, isso ao mesmo tempo em que isso se revela um fator positivo para a trama, acaba sendo também prejudicial. Enquanto assistia, fiquei pensando o quanto essa outra metade de Bicicleta Amarela, voltada para o drama de interação entre pai e filhos viajando de bicicleta pela Amazônia atrás da mãe, não tem aquele impacto emocional que o roteiro sugere.

Falta uma construção mais intimista da relação entre eles durante a jornada, principalmente nos conflitos surgidos pela decisão do pai. A impressão é que a duração (de aproximadamente 20 minutos) não consegue dar escopo a esse segmento importante para a essência do trabalho. O próprio final se revela abrupto para que o espectador assimile esse ritual de passagem desenvolvido no arco final. Por fim, achei estranho uma atriz como Jôce Mendes Freitas ter uma “participação especial”, sem qualquer tipo de fala, indicando um desperdício por parte do curta em tê-la e não a utilizar.

Bicicleta Amarela de certa forma é um passo interessante de Zeudi Souza como cineasta. É bem dirigido, visualmente é de encher os olhos e conta com uma belíssima atuação de Francisco Mendes. Para um realizador que no trabalho anterior (O Buraco) fez um retrato assustador sobre a brutalidade masculina a partir de um terror psicológico real, não deixa de ser surpreendente vê-lo caminhar por um sensível drama familiar. Uma pena que ao final da obra, a impressão é que o visual espetacular tirou o brilho da jornada emocional entre pai e filhos.

Autor

  • Danilo Areosa

    Psicológo nas horas formais e cinéfilo compulsivo nas informais. É amante, colecionador e apreciador tanto do Cinema de Arte quanto dos Filmes B e de Horror. Ama Martin Scorsese, François Truffaut, Michael Mann e Alfred Hitchcock da mesma maneira que idolatra “Outsiders” como John Carpenter, George Romero, Dario Argento e Lucio Fulci. Afinal, como dito pelo genial Orson Welles: O Cinema não tem fronteiras, nem limites. É fluxo constante de sonhos.

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