Certas obras representam mudanças profundas para determinados diretores pelo nítido salto de qualidade e de ambição dentro de uma carreira. “Os Boas Vidas” para Federico Fellini e “Tubarão” para Steven Spielberg são dois dos casos mais célebres da história do cinema. Sem qualquer tipo de pretensão em comparar com estes gigantes, “Boiuna” faz o mesmo por Adriana de Faria.  

A cineasta paraense já vinha embalada pelos sucessos dos ótimos “Ari y Yo”, curta de estreia dela que já rendeu Melhor Filme, Direção e Atuação no Festival Olhar do Norte de 2020, e “Cabana”, premiado como Melhor Curta Nacional do Festival do Rio.  “Boiuna”, entretanto, expande todas as virtudes que Adriana já apresentara nestes dois trabalhos anteriores para um filme ainda mais rico capaz de amarrar as metáforas amazônicas a serviço de uma temática urgente em uma história complexa.  

“Peça licença ao entrar na floresta”, avisa a mãe (Naieme, ótima) para a filha (a estreante Jhanyffer Santos, que descoberta!). Eis um conselho que se torna o mantra de “Boiuna”, afinal, ao se colocar dentro desta floresta, dos rios, igarapés, dos animais que ali vivem, a produção obedece à lógica deste universo, onde as encantarias passam longe de seguir os preceitos da sociedade ocidental a que estamos tão acostumados. Para tanto, o trabalho de som direto de Lucas Coelho capaz de captar os barulhos que parecem vir das entranhas das raízes das árvores mais profundas aliado à fotografia de Thiago Pelaes constroem de forma impecável esta teia audiovisual que nos insere nesta realidade. 

Com esta base, Adriana parte para aquilo que teoricamente seria imprudente quando se pensa que está apenas no terceiro filme da carreira e em um curta-metragem de menos de 20 minutos: trabalhar a lenda amazônica da cobra-grande como analogia aos abusos enfrentados por garotas nas regiões ribeirinhas do Pará. Aqui, entretanto, é onde realmente acontece o salto citado lá no primeiro parágrafo: a diretora/roteirista consegue costurar o drama coming of age da transição da infância para a adolescência jogando luz sobre uma realidade que outras meninas da mesma idade estão inseridas historicamente ao mesmo tempo em que subverte esta realidade ao encontrar uma resistência na força da encantaria, da floresta e das mulheres. 

Toda esta complexidade absurda passa longe de saídas maniqueístas ou didáticas: Adriana de Faria deixa o grafismo da violência em respeito a suas personagens – todas mulheres – para abordar os traumas de uma maneira menos invasiva, mas, não menos dura. São os espaços vazios que nos permitem compreender a formação assustadora daquela família e das outras ao redor. É na fumaça, este símbolo da destruição das florestas, que notamos o perigo. É na tentativa de um crime hediondo não mostrado que pulsa o único grito, quase entalado, do filme.  

Apesar de ser um pano de fundo crucial, o foco central de “Boiuna” não está no alerta e na denúncia desta realidade, mas, sim nesta união feminina. São nas broncas que viram abraços, no agradecimento em forma de banho, no compartilhamento de sonhos, na defesa uma da outra. “Boiuna” oferece caminhos a partir da aliança feminina e da encantaria das nossas lendas amazônicas novas possibilidades de lógicas para enfrentarmos realidades terríveis.  

Tudo isso em um curta-metragem de 20 minutos. Sem dúvida, um divisor de águas na carreira de Adriana de Faria em um filme que entra para a história da filmografia amazônico como um dos melhores já feitos na região.