Quarenta anos depois do original de 1982, Tron: Ares ressurge como uma continuação que entende seu próprio mito. Dirigido por Joachim Rønning, o filme não tenta reinventar o universo digital criado por Steven Lisberger, mas sim explorá-lo como território de memória e identidade. A produção entende o universo Tron como um campo de mitologia digital, onde cada feixe de luz e cada batida de sintetizador evocam não apenas nostalgia, mas também a pergunta que atravessa toda a franquia: o que acontece quando a criação ultrapassa o criador?
Desde o início, o novo capítulo mostra que é possível assistir sem ter visto os anteriores, mas que há uma camada de prazer adicional para quem reconhece o passado. O roteiro não se apoia em fan service gratuito, e sim em ecos, como a abertura em neon que remete ao filme de 1982, a presença simbólica das motos de luz e até o modo como a câmera se move, de forma que ainda tentasse decifrar um mundo feito de códigos e simetria. O espectador percebe que o digital, antes metáfora de um futuro distante, aqui se torna algo melancólico, um lugar onde a humanidade tenta reencontrar a si mesma através das máquinas.
O ritmo narrativo é menos acelerado do que o cinema de ação atual costuma ditar, o que pode surpreender ou frustrar quem espera um espetáculo constante de efeitos. Rønning opta por alongar os momentos de contemplação, quase como se Tron: Ares respirasse dentro do próprio código. As pausas silenciosas contrastam com explosões sonoras e visuais que, embora grandiosas, nunca parecem descoladas da emoção dos personagens. Essa alternância mantém o filme num estado de suspensão, entre a introspecção e o espetáculo. Em certos trechos, o meio-termo escorrega, algumas transições de ação soam bruscas, e a fluidez do ritmo se perde em meio a subtramas que não se resolvem com a mesma precisão.
Visualmente, Tron: Ares é um banquete calculado. O design de produção retoma a estética oitentista com um olhar contemporâneo, os contrastes de preto e neon, as superfícies espelhadas e as linhas geométricas ainda definem o espaço digital, mas agora há textura, profundidade e uma atmosfera quase ritualística. A trilha sonora herda o legado dos sintetizadores do Daft Punk e os atualiza com camadas mais sombrias, mais orgânicas. Há momentos em que a música parece pulsar junto com a narrativa, como se o som traduzisse o coração da máquina.
As atuações seguem essa mesma lógica de contenção e intensidade: Jared Leto entrega um Ares distante, quase etéreo, interpretado mais pelo olhar do que pela fala, o que funciona dentro do universo digital, onde emoção e lógica se confundem. Greta Lee traz humanidade e ritmo à trama, servindo como contraponto à frieza programada do protagonista. Ainda que alguns diálogos escorreguem para o didatismo, o elenco consegue sustentar o equilíbrio entre o drama existencial e o espetáculo visual.
O elo mais interessante, no entanto, é o modo como Tron: Ares resgata o espírito dos anos 80 sem se perder em nostalgia. Há um senso de reverência, mas também de atualização, como se o filme olhasse para trás apenas para entender o presente. Os temas de identidade, controle e transcendência continuam ali, mas ganham uma nova camada: a solidão digital. Se antes o Grid era símbolo de futuro, agora parece uma lembrança, uma ruína luminosa.
No fim, o filme pode parecer irregular em ritmo, mas compensa pela atmosfera, pelas escolhas visuais e pela coerência temática. Rønning sabe que Tron nunca foi apenas sobre tecnologia, é sobre a vertigem de se ver refletido numa tela. E nesse sentido, o novo capítulo funciona, não como um reboot, mas como uma espécie de eco emocional.
Não é perfeito, mas é envolvente, vibrante, e confirma que há algo de vivo pulsando dentro daquele mundo azul e luminoso que começou há mais de quarenta anos.













