Lembro até hoje do impacto que senti quando aluguei Amores Brutos na locadora em meados dos anos 2000. Para alguém que estava na casa dos 20 anos, ainda engatinhando nos conhecimentos cinematográficos era um tipo de cinema social febril, meio clandestino na proposta e na qual não estava acostumado a presenciar tanto na abordagem quanto na temática fílmica, principalmente, por retratar de uma maneira visceral uma realidade sendo desnudada, onde cada imagem trazia uma intensidade física que parecia sangrar as dores e desilusões dos personagens em tela.
25 anos depois, o filme de estreia que projetou o cineasta mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu para o mundo, e é claro, o introduziu na grande Hollywood, retorna no formato 4k aos cinemas para comemorar suas bodas de prata. Mesmo que nesta revisão, ele não tenha produzido a mesma energia fílmica do passado, dá para reconhecer os diversos méritos que apresenta.
Apesar de imerso em um novelão que pesa a mão em assuntos que por si só já são pesados por natureza ao utilizar questões pessoais como sofrimento e infortúnio para chocar/incomodar o espectador, Amores Brutos impressiona pela força motriz que aborda a ambivalência e a imperfeição da natureza humana por meio de simbolismos que servem para ressignificar a experiência dolorosa das vias-crúcis vividas pelos personagens em suas jornadas pessoais.
Iñarritu e o roteirista Guillermo Arriaga nos apresentam um mosaico de três histórias que se interligam na cidade do México por um acidente de carro e cachorros. No primeiro núcleo acompanhamos Octavio (Gael García Bernal), um jovem apaixonado por Susana (Vanessa Bauche), mulher do irmão, que aposta o próprio cão Colfi em rinhas clandestinas para poder ganhar dinheiro e fugir com ela. No segundo, Valeria (Goya Toledo) uma famosa modelo, envolvida com um homem casado, Daniel (Álvaro Guerrero) vê sua vida de luxo desmoronar quando sofre um acidente de carro e o cachorro de estimação, Ritchie, desaparece sob o assoalho do apartamento novo. Por último, acompanhamos Chivo (o ótimo Emilio Echevarría) um ex-guerrilheiro que vive pelas ruas da capital com seus cachorros como matador de aluguel. Devido os erros do passado, ele busca se reaproximar da filha depois da morte da ex-esposa.
Os três enredos que se entrelaçam retratam um cinema pesado, cruel e niilista, que estuda o que existe de implícito nas atitudes individuais do ser humano, com o afeto e a perda sendo representados como lados da mesma moeda. É interessante a maneira que o longa-metragem mostra o contexto ambíguo das paixões com um olhar sobre as ações humanas a partir de seus aspectos irracionais e cuja analogia com os cães apresenta o que neles nos reflete: o instinto e o desejo.
O diretor eleva visualmente esse espiral de violência, vingança e culpa com uma direção incisiva que valoriza a urgência da situação para documentar a lógica selvagem que governa a realidade mexicana. A sua direção em conjunto com a fotografia de Rodrigo Prieto transforma a cidade em um organismo vivo, em constante luta contra a marginalização. Cada plano ajuda a dimensionar o espaço social em que amor e violência se misturam e a desigualdade social se confunde com a necessidade de sobrevivência.
No fundo, o México dos anos 2000 é um corpo vivo, mas adoecido pelos barulhos das sirenes, pela passionalidade amorosa feroz e pelos rosnados dos cães, que são ao mesmo tempo espelhos e vítimas da sociedade, moldados por donos e donas regidos pelo instinto de sobrevivência. Não é à toa que a própria câmera parece correr, tropeçar e respirar junto com os personagens, com o cineasta valorizando os closes ups nos rostos para acentuar o tom realista das tragédias emocionais de cada um.
E cada uma das três histórias traz a essência da dualidade entre amor, brutalidade e resiliência: Octavio acredita que Susana vai amá-lo pelas batalhas de sangue que ele trava diariamente, motivado por forças instintivas alimentadas socialmente pela disputa de poder que tem com o irmão; o casal Valeria e Daniel veem o sonho desmoronar junto com o acidente que ela sofre, com Ritchie simbolizando as desilusões geradas pelas perdas afetivas e físicas da chamada “vida perfeita” – A cena em que ela observa o outdoor retirado com sua foto é emblemática neste sentido sobre a perda da felicidade; e, por fim, Chivo que precisa lidar com os fantasmas emocionais do passado quando enxerga a sua própria natureza na figura de Colfi, funcionando como uma epifania para se reconectar com a filha.
É claro que Amores Brutos sofre um pouco pela falta de regularidade entre os segmentos: a tram de Octavio e Susana começa muito bem pela intensidade em que registra o triângulo amoroso entre irmãos com ecos bíblicos (estilo Caim e Abel) e a relação marginalizada deles com o contexto social, mas depois do acidente de carro que ele se envolve, a resolução tem um final abrupto e decepcionante. Por sua vez, o ciclo de Valeria e Daniel se revela o mais angustiante e sufocante da produção, mas que carece de mais minutagem em tela, o tornando aquém da sua proposta psicológica. Sobra que a jornada de Chivo, é sem dúvida, a melhor desenvolvida, muito em razão da complexidade do personagem e da reflexão implícita que o texto de Arriaga propõe sobre o quanto selvageria do homem é quase idêntica a natureza selvagem dos cães.
Ame ou odeie Amores Brutos é um filme de grande importância para a renovação do cinema latino-americano há duas décadas. Ouso dizer que ele é equivalente para o cinema mexicano como Cidade de Deus foi para o nacional, tanto a nível narrativo ao abordar a violência e sua marginalização quanto na abordagem estética realística em retratar as suas implicações sociais.
É fato que Iñarritu é hábil em conectar o acaso para contrapor o fatalismo das estruturas sociais (violência, caos urbano, miséria social e morte) e o abismo trágico que a separa das relações passionais. Mesmo reconhecendo que o cinema do mexicano é pretensioso e até mesmo exibicionista em certos momentos, eu gosto da forma que ele potencializa a vida de cada ser humano diante de suas próprias limitações a partir de como eles vivenciam suas experiencias de dor – também somos o que perdemos é a frase que encerra o filme – como oportunidades de transformação. Aqui em sua estreia, ele faz um cinema pulsante no seu estado mais cru, que morde tão vorazmente quanto seus perros e que deixa claro que o sujeito homem é tanto um produto do meio quanto um animal alimentado pela sua natureza intrínseca.















