Há três semanas perdemos Diane Keaton. Sua partida me despertou a vontade de conferir mais da sua filmografia, a qual assisti poucas coisas. Grande parte dela está vinculada a Woody Allen, um diretor ao qual, no mínimo, não me agrada muito. Mas decidi por “Interiores” (1978) e aconteceu que, bem, eu gostei de um filme do Woody Allen. Talvez por ser o menos Woody Allen possível.
O longa traz a história de uma família burguesa de Manhattan, com uma aparente rotina de tranquilidade, abalada quando o pai decide abandonar a casa para viver com outra mulher. O caos recai sobre as filhas, que além de lidar com seus próprios problemas, agora precisam consolar a mãe.
Vamos ser sinceros: eu não gosto do Woody Allen. Mas sei reconhecer quando alguém que eu não gosto tem um bom ponto. Ele fez alguns com “A Rosa Púrpura do Cairo” (1985), “Hannah e suas Irmãs” (1987), “Vicky Cristina Barcelona” (2008) e Interiores, claro. Mas também eu admiro bastante o trabalho do diretor sueco Ingmar Bergman. Allen pelo visto também.
Interiores está longe de ser um filme em que você bate o olho e vê que pertence à grife WA. Já nos créditos iniciais não temos o elenco listado em ordem alfabética, como de costume. Também não temos o próprio diretor interpretando algum palhacinho em tela – como no citado “Hannah” ou no seu grande clássico “Annie Hall”, nem piadas preconceituosas ou de mau gosto sobre assédio e pedofilia. Allen se afasta de seus vícios textuais em prol de um roteiro mais adulto e familiar.
O take de abertura é sublime – a visão do interior de uma casa vazia, e evoca “Persona” (1966). Vemos as personagens olhando pela janela, melancólicas, a relembrar um passado feliz que se perdeu em meio aos tumultos da vida adulta. Entre a filmografia de Allen, não é um dos com mais hype, mas talvez seja ele em sua melhor forma – ou imitação.
A história em si é meio bobagem de gente branca rica, mas é tão bem construída, desenvolvida e atuada, que você nem sente o tempo passar. É um filme curto, mas parece mais curto do que realmente é, isso é bom! Vemos essa família que do mais absoluto nada se desfaz, e como nenhum deles, além do pai, está preparado para aceitar mudanças. Conforme o enredo se desenrola, vemos o quanto estão mergulhados numa infelicidade que eles próprios não admitem existir ou deixam transparecer. É o retrato de uma classe que está enlamaçada na sua própria falsidade e necessidade de manter as aparências. É uma história amarga.
Lógico que a profundidade não é tanta assim. Allen emula Bergman, mas seu texto ainda é de nova-iorquino fazendo cinema comercial, então não espere ele questionando a fé como “O Sétimo Selo” (1957) e nem que o conflito das irmãs seja uma espécie de “Gritos e Sussurros” (1972). Ainda assim é um texto muito bom, acima da média, principalmente quando comparado às suas tentativas de soar cômico (Bananas, O Dorminhoco), mas em que seu texto apenas beira a infantilidade. É um erro se levar a sério demais quando está fazendo comédia, enquanto sua pretensão soa muito mais interessante e visceral quando acessa essa veia dramática familiar adulta conturbada.
Woody busca inspiração principalmente na parte técnica. Interiores é lindamente filmado, o esmero é palpável. A fotografia é nublada, alguns tons de azul, e deixa tudo mais denso. Seus enquadramentos ressoam ao já mencionado “Persona”, mas não somente a isso, ambos são filmes claustrofóbicos, que se libertam através de uma praia. A sequência final de Interiores é incrível exatamente por isso. No final, o mar limpa os traumas dessa família, ainda que precise fazer de forma trágica.
Nessa história sinto pena mesmo é da Flyn (Kristin Griffith), coitada, é a única equilibrada dessa família. A mãe é brilhantemente interpretada por Geraldine Page e parece aquelas megeras de novela. A Joey (Mary Beth Hurt) é uma egoísta – e que bom que ela reconhece isso. Pearl (Maureen Stapleton, fabulosa!) é um amor que não merecia aturar essas cavalas. Os maridos tem algumas mini tramas também, mas eles não importam.
Mas vamos ao motivo pelo qual assisti esse filme: Diane Keaton. Sua partida me pegou de surpresa e decidi assistir algo com ela no elenco e a escolha não poderia ter sido mais acertada. Interiores em si não tem uma protagonista, então Diane rouba esse posto pra si. Ela é brilhante! Renata é uma personagem complexa e controversa, e Diane sabe explorar cada uma de suas camadas. Sua primeira cena com a psicóloga e a discussão com seu marido de saída pra festa atestam a potência de sua performance, você se compadece com os fardos que ela carrega e aí passa a detestar o marido invejoso e a mala da irmã. Ela nunca parece estar seguindo um roteiro, faz com que tudo dito pareça naturalmente sair da sua alma, e é uma sensibilidade que nem todo ator tem. Sem dúvidas, uma perda irreparável.
Naquele longínquo ano de 1979, coincidentemente, Allen e Bergman disputaram juntos o Oscar de Roteiro Original – “Interiores” x “Sonata de Outono” (1978). Ambos perderam. Mas talvez o saldo seja mais positivo pro Woody, que ganhou um filme de calibre para sua filmografia, e que de certa forma, serviu de ponto de partida para tons mais pungentes e atemporais na própria.
Descanse em paz, Diane.













