A temporada 5 de Stranger Things traz tudo aquilo que tornou a série um sucesso da Nettlix: nostalgia, referência a clássicos do cinema, um mistério interessante e jovens carismáticos. Voltamos à Hawkins e ao Mundo Invertido, sem apresentações, já que nos tornamos íntimos desse ambiente, tudo que precisamos compreender é como a cidade se comporta depois dos portões abertos por Vecna (Jamie Campbel Bower) no final da quarta temporada.

Para isso, é curioso que os Duffer Brothers mais uma vez decidam dividir o time de heróis em vários subgrupos de ação. A escolha possibilita que todos tenham mobilidade durante a trama e possam ter seu envolvimento para o encerramento da guerra contra Henry Creel. Nesse processo, no entanto, mais uma vez Dustin (Gaten Matarazzo) é o personagem que mais sofre, por ser aquele que está mais distante de todo o grupo, novamente.

Enquanto todos estão tomando os acontecimentos que levaram Max (Sadie Sink) a entrar em coma como motivador para descobrir onde Vecna está e destrui-lo, Dustin ainda está aprisionado a memória de Eddie (Joseph Quinn). O trauma e a sensibilidade do garoto poderiam ser usados para buscar soluções, afinal seu papel dentro da turma é ser justamente o cérebro da equipe. O namorado de Suzie, no entanto, se afoga em ressentimentos e mágoas, o que contribui para o seu distanciamento dos outros, até mesmo de Steve (Joe Keery), com quem compõe uma dupla interessante. Seu rancor é tão forte, que até mesmo essa relação se azeda.

Outro destaque, nesse primeiro momento, é dado para Will (Noah Schnapp). Sua construção nesse capítulo, finalmente, amarra o último ponto do ciclo iniciado quando o mesmo sumiu/foi sequestrado na primeira temporada. Sua proximidade com Robin (Maya Hawke) é importante não apenas porque finalmente ele tem alguém, no seu círculo de amizade, que realmente o escuta sem menos prezar suas ideias,  mas também por ser alguém com quem ele pode realmente partilhar como se sente e o que sente sem necessitar ter o cuidado de esconder-se.

Vejo como um acerto de Stranger Things, uma vez que permite aos dois personagens ainda uma maturação e intimidade para discutir a descoberta sexual sem parecer forçado, didático ou piegas. É um adolescente que tem curiosidade e encontra um semelhante mais velho em quem pode confiar e Robin é sensível não só para perceber os conflitos de Will internos de forma geral — seu relacionamento com a mãe, os traumas do Mundo Invertido e os sentimentos por Mike (Finn Wolfhard) —, mas também para lhe dar um vislumbre sobre o processo de auto-descoberta.

Os quatro primeiro episódios servem como uma construção para as discussões e resoluções que virão mais adiante. Enquanto os primeiros soam mornos, o quarto episódio amarra algumas histórias, aponta direções e ainda evidencia a evolução de certos personagens de forma magistral. É realmente um episódio dedicado a Will e tudo o que o personagem tem a oferecer tanto no campo sentimental quanto na batalha contra Vecna. 

A narrativa é construída evidenciando como uma coisa está acoplada a outra. É interessante observar como a história de Stranger Things se alicerça a partir do desaparecimento de Will e cada temporada foi projetada para nos mostrar como essas peças se encaixam. Ao colocar o filho mais novo de Joyce (Winona Ryder) na centralidade da trama, possibilitou não apenas começar o fechamento do ciclo, como também expandir as discussões que a série se propõe. Nessa esteira, fica nítido porque as vítimas favoritas de Vecna são as crianças e cria-se uma simbologia das ações do vilão que causa ainda mais ojeriza.

O fato das crianças serem as únicas capazes de enxergar Henry Creel me lembra muito “It – a coisa”. Se pararmos para refletir, há muito do universo de Stephen King na construção do grande vilão de Stranger Things, já que Hawkins parece muito com a Derry em quem o coração da maldade está instalado. Nesse caso, o Mundo Investido. Vecna, assim como Pennywise, escolhe crianças por elas serem mais suscetíveis e “inocentes” para que os seus planos se concretizem. Torna-se então perturbador, mas interessante, como a série amarra a conexão de Will e Vecna.

Will foi a primeira criança a ser levada para o Mundo Invertido e, ao longo de todas as temporadas, vemos como esse evento atropelou a vida do garoto, o afetando de diversas maneiras. Mas, aqui, fica realmente evidente como tudo o que aconteceu com Will pode ser compreendido como um abuso físico, mental e sexual. A forma como Vecna invade o seu corpo, assim como faz com as outras crianças, é uma agressão que se aprofunda e grita no confronto entre ambos; deixando claro que Vecna trata Will como se fosse o seu abusador — o que não deixa de ser. Ele atesta suas pretensões de aterrorizar e quebrar o adolescente mental e emocionalmente para que ele seja mantido como seu refém. O que me leva a pensar o quanto a amizade com Robin e o quarto episódio da temporada são os caminhos de cura para Will.

A aposta, nessa decisão, faz com que a série cresça e ainda deixa um gostinho de quero mais para o que virar nos próximos episódios. Obviamente, torcemos para que todos os ciclos se fechem e outros personagens consigam ser explorados de forma interessante, para que realmente deixem saudade.