Juventude e surrealismo é uma combinação bem inusitada, mas que se completam justamente por ambas serem imprevisíveis e intensas. Nesse contexto, Boys go to Jupiter expressa suas inquietações com um tempero bizarro e surreal da vida de um rapaz, colocando o capitalismo e o amadurecimento precoce como elementos centrais das suas vivências.

Surfando no embalo de Flow (2024), a animação também foi realizada de forma bem independente no Blender, com uma estética bem rudimentar, lembrando muito o estilo Stop-motion. As movimentações são travadas, as cores vibrantes e destacadas e os cenários bem modestos, numa concepção bem crua e básica. Essas escolhas dão uma singularidade muito profunda, pois traz um ar de simplicidade e personalidade para a história.

Nesse ponto, o surrealismo se sobressai pois dá a dualidade necessária para a narrativa, quando o normal dá palco ao absurdo. A música exerce um papel fundamental nisso porque ela guia o espectador para essa viagem alucinógena, como forma de desligamento de uma realidade e conexão com o lúdico. Dentro disso, o longa não tem medo de oferecer momentos bizarros e cenas extravagantes, incluindo um segmento musical inusitado de uma criatura.

Graças a essa pegada surrealista, o roteiro esbanja muita inventividade, seja nas criaturas apresentadas como na construção daquele mundo, lembrando o jogo The Sims em alguns aspectos. É tantas coisas malucas sendo mostradas que o filme fica em alguns momentos exagerado. O problema é que tem tantos elementos que o roteiro não consegue dar equilíbrio para tudo.

A narrativa gira em torno de Billy 5000, um jovem que começa a trabalhar nas férias para conseguir uma renda para melhorar de vida. Nesse arco, o roteiro aproveita para ratificar o amadurecimento precoce do garoto, tendo decisões e atitudes de adultos, como trabalhar, preocupação com dinheiro e cuidar de uma criatura. A vida de Billy se contrasta com a dos seus amigos, que estão se divertindo e aproveitando suas férias enquanto Billy está trabalhando e correndo para ganhar dinheiro.

Além disso, existe um lampejo de referência ao longa E.T – O Extraterrestre, sobre a amizade improvável de Billy e um criatura mágica que ele chama de Donut. Outro elemento entra em foco, que é a responsabilidade de cuidar de um outro ser, mais um ponto que realça a adultização de Billy.

Boys go to Jupiter aproveita para fazer uma crítica ao capitalismo e como o dinheiro se torna uma ferramenta de ambição e obsessão. O ambiente disfuncional familiar de Billy entra nessa equação, pois é o motivo que ele busca para ter uma vida melhor. O tom é bem cínico em relação a isso, ressaltando que o capitalismo causa uma sensação sufocante e urgente. Outro apontamento bem pertinente da animação é a dependência do ser humano das telas de celular, tornando-os cada vez mais escravos delas.

Em um outro segmento, o longa vai para um núcleo bem distinto, centrado na Rosario “Rosebud”, herdeira da fábrica de Sucos Dolphin Groves. A discussão envolve os conflitos de geração e o legado, com Rosebud tendo uma linha de pensamento bem diferente da sua família. Tanto Billy como Rosebud são jovens buscando uma vida melhor, no entanto, em contextos sociais e objetivos diferentes.

O diretor Julian Glander não esconde a sua ótica pessoal ao projeto, lembrando muito a pegada dos filmes do Richard Linklater, que tinham uma energia muito naturalista e madura. A inocência é evidenciada, em um mundo chato e abandonado a melhor opção é a fuga da realidade. As próprias escolhas de músicas bem alternativas também dão esse caráter mais singular.

Recheado com uma inventividade admirável, Boys go to Jupiter se afasta de um coming of age convencional ao adotar o surrealismo como sua força motriz. A animação, mesmo com sua aura bizarra, surpreende ao retratar uma história tão profunda e intimista acompanhada de muitas loucuras e comentários relevantes sobre a juventude e a sociedade atual.

Autor

  • Ator, dublador e formado em Produção Multimídia na faculdade Centro Universitário Padre Anchieta de Jundiaí, SP. Também produtor de conteúdo do canal Cine Multiverso no YouTube. Cinema é a minha maior paixão. O cinema é uma arte de perspectiva.

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