Filmes que enfocam crianças têm um baita desafio nas mãos: como dosar a performance de seus diminutos intérpretes para que a coisa não seja fofinha demais, bonitinha demais, enfim, forçada demais? O cenário é igualmente desleal para o crítico. Digamos que você se depare com uma dessas atuações mal calibradas; agora você está na posição de escrever negativamente sobre o trabalho de uma criança. Como você dormirá esta noite?
Felizmente, as crianças de “A Natureza das Coisas Invisíveis” realizam o mais difícil: ser apenas crianças numa tela grande. Quando pisam em falso, o problema está mais no roteiro e direção de Rafaela Camelo do que em suas performances.
O centro do filme é Glória (Laura Brandão), que passa as férias escolares acompanhando a mãe em seu trabalho de enfermeira (“Você está acabando com as minhas férias!”, ela brada). No hospital, a menina passa um tempo entre os pacientes da terceira idade sem se dar conta de que alguns deles já estão de saída. Os mortos se tornam caixas de pertences pessoais esquecidas num galpão do hospital, de onde Glória tira os adereços para suas brincadeiras. Ela não ficará sozinha por muito tempo. Acompanhando a sua bisavó enferma, Sofia chega ao hospital e as duas meninas logo se tornam melhores amigas (Serena é o nome da atriz mirim e, por algum motivo, fiquei estranhamente comovido pelo fato de ela ter um perfil profissional no Instagram).
As melhores cenas do filme são aquelas em que as crianças simplesmente brincam, em chave observacional. Fica claro que a diretora tem talento para deixar todo mundo à vontade no set. Algumas passagens de seu roteiro, no entanto, forçam a barra. Em uma cena de birra, a pequena Glória se justifica para a mãe dizendo estar fazendo uma “pergunta completamente razoável” — e, com isso, estamos subitamente no território de um “Esqueceram de Mim”, onde crianças fofinhas falam como adultos. Não combina com o que tínhamos até então.
Na verdade, dá para dizer que “A Natureza das Coisas Invisíveis” oscila entre dois polos: o do naturalismo e o do fantástico (interessante ver o nome de Juliana Rojas como consultora de roteiro nos créditos). Quanto ao primeiro, o roteiro é irregular. Com isso, o filme depende pesadamente de seu elenco; dentre os adultos, é Camila Márdila, como a mãe de Sofia, quem se sai melhor.
Mas os arroubos de lirismo da história compensam seus tropeços. Particularmente bonita é a culminação de uma reviravolta envolvendo Sofia, com a encomendação da alma de seu “irmão” ao céu. Bonita, sim — mas a reviravolta da personagem poderia ter sido melhor explorada. Do jeito que está, parece que a diretora pensou primeiro na tal cena, e trabalhou de trás para frente para inseri-la no restante da trama, a certo custo.
São coisas pequenas, mas que causam alguma trepidação ao longo do filme. Mas nada de pânico: entre o céu e a terra, não há nada que um adorável e inusitado número musical ao final de seu longa não possa redimir. “A Natureza das Coisas Invisíveis” sabe disso muito bem.












